para Carlos

No post da quinzena passada, brinquei com a atitude de um determinado tipo de público de música erudita, que se jacta de ouvir "a dita boa música que pode, inclusive, levar ao sono", o que deve ter incomodado algumas pessoas da área, que buscaram desautorizar o meu escrito, alegando que eu não conheço o assunto. Realmente, não conheço música erudita a fundo, tanto que recorri a gente mais entendida pra fundamentar minhas apreciações. Aliás, com referência ao assunto que tratei – A Nona de Beethoven, com a Orquestra Juvenil da Bahia, criada pelo Neojibá – gostei do que ouvi e explicitei isso na coluna.

Um amigo comentou que fui sincero demais. O fato é que, quando falei que a música pode levar ao sono, fui mais irônico do que sincero, o que serei agora: não vejo como negativo o fato de se dormir enquanto se ouve música, ou até porque se ouve música. Acho até bastante saudável o hábito, e o faço com frequência. Naquele estado de semi-consciência que antecede o sono profundo, ouço coisas que, acordado, não conseguiria perceber, ou percebo-as de uma outra maneira.. Em suma, adoro adormecer ouvindo música.

Passei estes últimos dias, aliás, ninado por Gal Costa, mas vou contar do começo: tinha comprado, quando saiu há cerca de dois anos, a caixa de Gal com seus discos na gravadora Universal, só que o Cd bônus duplo, Divina, maravilhosa, de raridades, sumiu da caixa após eu tê-la comprado, o que me deixou bem triste. Vasculhei todo canto do apartamento atrás do disco, perguntei à namorada se não estava com ela, ao meu irmão, dividi o assunto com amigos, mas nada do cd ser encontrado.

Como o cd bônus ficou perdido – e Gal está linda nas fotos do encarte, capa e contracapa – não tive ensejo de baixar ou copiar de alguém o disco, pois sou daqueles que, quando ouve música, manuseia a capa do cd e fica curtindo as fotos, as letras, a programação visual, ficha técnica, como quem admira a roupa de alguém com quem se tem um encontro. Cd, objeto amoroso. Era como se Gal tivesse me deixado, abandonado e tristonho, cão sem dono e sem som. Resultado: a caixa de cds de Gal virou um tabu da minha discoteca e eu não conseguia ouvir mais nenhum disco da mesma sem tornar a sofrer pelo cd perdido.

Fiquei uns meses nesse luto, quase esquecendo-o, quando um amigo  – que eu vejo pouco, mas quando acontece, a gente não precisa dizer nada um pro outro – me convidou, em cima da hora, com os ingressos, pra ir assistir ao novo show de Gal, Recanto, título também do disco, já comentado por mim, à época do lançamento.

Fui ansioso e, à medida que o show continuava, ficando feliz. Banda compacta, apenas três músicos: Pedro Baby, na guitarra e violão, Domenico Lancelloti, na bateria e MPC, e Bruno Di Lullo, no baixo e violão. Gal estava à vontade e fez jus à condição de musa de qualquer estação, tantos discos e este último desafiador, "exuberante, cruel" – na definição de Bethânia – pelas mãos de Caetano, seu compositor mais frequente e que lhe deu canções – pro Recanto - de uma força que nem deu a si no mais recente Cd, feito um Fernando Pessoa dedicando-se ao seu Álvaro de Campos, heterônimo-parceiro.

Caetano também dirigiu o show com a maioria de canções suas,  com espaço pra Chico Buarque (Folhetim  - quando o baixista fez a melodia da introdução instrumental que, na gravação original, é feita por um sax, os tempos se fundiram, a Gal de antes e a Gal de hoje viraram a Gal de sempre), Jorge Ben (Deus é o amor, do primeiro disco solo, com a turma tropicalista azeitada), Gil (Barato total -  do disco quase perfeito, Cantar, também dirigido por Caetano, mais Perinho Albuquerque) e até Sullivan & Massadas, com a linda Dia de Domingo. Gal cantou a sua parte e depois, imitou Tim Maia, cantando a parte dele, desvelando Tim, incórporeo, imaterial, presente. Gal, não apenas a voz. Gal, expressão do canto.

Divino Maravilhoso,  de 1968, parecia ter sido composta naquela semana, tamanho o frescor da interpretação de Gal e da execução da banda, firme, forte, exata, as mesmas vinte palavras de João Gilberto Cabral de Melo Graciliano. Os momentos da carreira de Gal  foram iluminados, até mesmo os anos oitenta – quando as gravações do que se chama mpb sofreram com a padronização dos estúdios – e a gente vê que, mesmo sob aqueles teclados tão datados hoje, ficaram as canções: Minha voz, minha vida e Meu bem, meu mal. Com a banda nova de Gal, mais fortes e nuas.

Dia seguinte, satisfeito da vida, quase esquecido do cd perdido, sou acordado, pela manhã, por um telefonema de meu irmão:

- Achei o cd que você considerava perdido, estava entre os meus discos!

Reconciliei-me com a caixa, Gal havia voltado, dormi  com seu canto me embalando, e me peguei murmurando aquela música de Chico Buarque e Ruy Guerra, gemendo os versos "você vai me velar/ chorar, vai me cobrir/ e me ninar, me ninar, me ninar", repetindo-os  num sem fim intenso.