Se me perguntassem o que entendo por sustentabilidade, essa palavra não muito simpática, hoje eu responderia que é o exercício inglório de equilibrar as contas. As contas de todo tipo: nos ativos e passivos financeiros, no balanço nos processos vitais na natureza, no uso e regeneração dos recursos naturais, na contabilidade do carbono na atmosfera, na interdependência entre os seres vivos, nas relações socioeconômicas.

Quem mexe com isso está “nadando contra a corrente, só pra exercitar”. Sim, o exercício não parece levar a lugar algum senão simplesmente nadar contra a corrente em mar aberto. Porque a corrente é feita de contas que não dão sinal de que vão fechar tão cedo.

Um simples exercício juntando aqui e ali alguns dados recentes: adicione o último relatório do Banco Mundial sobre clima com dados da Agência Internacional de Energia a respeito do aumento do subsídios aos combustíveis fósseis,  mais as declarações do recém-reeleito presidente Barack Obama e informações sobre o Fundo Clima. O resultado é uma equação matemática até agora sem solução.

Vamos a cada um de seus fatores. Segundo o relatório cujo título é mais um chamamento (“Turn Down the Heat”, ou Diminuam o Aquecimento), digno das ONGs mais ativistas, o Banco Mundial alerta que caminhamos, seguindo-se o atual ritmo, a um aumento da temperatura global de 4 graus até o fim deste século. E para mobilizar a sociedade contra esse aumento, desfia no estudo as consequências que vão bem além do furacão Sandy.  Para se ter ideia, o aumento de 2 graus é o teto que os cientistas recomendam para que as catástrofes não sejam tão arrasadoras, considerando que algum aumento já é inevitável mesmo que as emissões de gases cessassem hoje por completo.

Segundo fator: por maior que seja o contrassenso, os subsídios concedidos pelos governos à produção de combustíveis fósseis ( que levam ao aquecimento) vêm aumentando desde 2009, como mostra a Agência Internacional de Energia (mais detalhes na próxima edição de Página22, em dezembro).

Terceiro: o presidente dos Estados Unidos, que no primeiro mandato se mostrou um entusiasta da economia verde, declarou logo depois de ser reeleito que “a economia vem antes do clima”.  Ou seja, colocou como itens antagônicos o crescimento econômico e a economia de baixo carbono, como se esta fosse incapaz de gerar empregos e renda e pudesse ser uma alternativa de transição a bases mais sustentáveis de produção e consumo. Esse tipo de sinalização é um desserviço diante de todo o esforço de conciliar criação de empregos e geração de renda dentro de uma economia mais verde, jogando uma ducha fria na inovação e no poder criativo que essa nova economia demanda.

Quarto: como noticiado pelo Valor, há riscos de o Fundo Clima, destinado a reduzir emissões e a financiar políticas de adpatação à mudança climática no Brasil, perder R$ 500 milhões por conta da mudança na divisão dos royalties do petróleo, projeto de lei recentemente votado na Câmara e que aguarda sanção presidencial.  Os royalties seriam uma das poucas fontes de recursos para mitigação e adaptação climática no Brasil.

Considerando que o Brasil tem um grande contingente populacional extremamente vulnerável às catástrofes ambientais (como deslizamento de encostas, inundações e aumento na incidência de doenças tropicais), e que o relatório do Banco Mundial confirma que a população pobre será a mais atingida pelo aumento da temperatura, a retirada dos recursos é mais um dos grandes contrassensos dessa história.

Mas vamos continuar nadando, até porque as outras alternativas a isso são piores.