Há menos de 10 anos, quando fazia minhas primeiras reportagens sobre mudança climática, lembro que as projeções contemplavam um cenário de cerca de várias décadas ou até mesmo uma centena de anos. Falava-se de mudanças de longo prazo, em uma linha do tempo esticada, dentro da qual também se esparramava a imensa autoconfiança humana em usar de sua inteligência tecnológica para contornar o problema e assim acreditar que continuaria sobre o controle da situação.

Cem anos, ou que sejam 50, é escala de tempo que esfria qualquer reportagem jornalística. Como emplacar uma manchete que apontava para uma crise tão grave, mas diluída neste largo espaço de tempo? Isso não era notícia. Assunto importante, mas não urgente, estava fora da ordem do dia das redações.

Em anos mais recentes, já se ouvia de cientistas que o aquecimento global galopava mais rapidamente do que o previsto, e que a mudança batia à porta e já se manifestava, enquanto a mídia em geral esquivava-se de correlacionar os fenômenos meteorológicos pontuais extremos – cada vez mais frequentes – e uma mudança do clima em escala global e irreversível.

Esquivava-se. Por exemplo: anteontem, no Jornal da Globo, a correlação foi enunciada, de forma clara como o Sol. Vários jornais impressos também já ligam os fatos. Contribuiu para reforçar essa correlação o recente anúncio da agência climática climática americana (Noaa) de que 2012 foi o ano mais quente da história dos EUA, ou pelo menos desde 1895, quando começaram as medições.

Secas terríveis provocando quebra de safras; incêndios florestais deste e do outro lado do mundo, na Austrália; furacões como Sandy; inundações; chuvas torrenciais e temperaturas recordes nos quatro cantos do mundo, incluindo Porto Alegre, lembram aquele cenário infernal longínquo de 100 anos – só que materializado aqui e agora.

O inferno antecipado não vai só na linha do “filme-catástrofe”. Está por aí, no dia a dia, na dengue, na conta de luz e no “pibinho”.

A Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz) acaba de soltar um estudo mostrando que, em um mês, os casos de dengue explodiram 45% com um aumento de 1 grau na temperatura. Quais os efeitos desta e de outras doenças tropicais com aumentos bem maiores de temperatura, como são previstos? É uma preocupação com o futuro que não deve ofuscar o presente, pois o aumento já está ocorrendo agora, causando sofrimento e matando gente. E isso é notícia.

Também é notícia o nível dos reservatórios das hidrelétricas, e as discussões sobre os efeitos que a escassez de água teria não só na oferta de energia (com risco de racionamento), mas no preço que poderá impactar o consumidor residencial, comercial e industrial, com o acionamento das termelétricas e a importação de gás para alimentá-las. O que por sua vez repercute na sustentação do crescimento econômico que afeta a vida de todos. Como o governo vai pôr em prática o mantra do crescimento econômico sem oferta suficiente de energia?

É aí então que lembram das chuvas. Com a ocorrência cada vez mais frequente de eventos extremos, como secas severas e precipitações mal distribuídas pelo território, temos a mudança climática afetando em cheio a economia.

Seja a mudança global do clima, que já está em curso, seja a mudança local, que é imediata. Desmatamentos afetam diretamente o microclima, com mudança no regime de chuvas nas cabeceiras dos rios. Não só isso. O desmatamento da Amazônia se reflete na quantidade de umidade e de chuvas que caem no Centro Oeste e Sudeste, por meio dos chamados rios voadores (www.riosvoadores.com.br/o-projeto/rios-voadores). Sem a Amazônia como a conhecemos, a Mata Atlântica e o Cerrado acabam de vez, e tudo caminha para a desertificação.

Acionar as termelétricas é necessário pata evitar um apagão, mas joga mais carbono na atmosfera e agrava a mudança do clima. Paliativa, não pode ser apontada como uma solução sustentável, ainda que complementar à fonte hídrica.

O exemplo da energia mostra como é necessário pensar e planejar a economia junto com o ambiente, pois esta depende deste. E adaptá-la às mudanças ambientais globais, para diminuir o sofrimento e o prejuízo das pessoas.

Em tempo: o planejamento e adaptação são para já, pois não temos mais aqueles anos todos. Como cantam festivamente os globais na televisão em todo começo de ano, o futuro já começou, mas quando a letra da música foi concebida por Nelson Motta, Marcos e Paulo Sérgio Valle, aqueles eram tempos ingênuos e esperançosos. Hoje, o tom deveria ser bem, bem mais sóbrio.