Ele é um “emérito desconhecido” na maioria das salas de aula de Economia. Mas, em 20 de março, será o centro das atenções em uma delas, na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP). O matemático e economista romeno Nicholas Georgescu-Roegen (1906-1994), sua obra e suas ideias serão objeto de homenagem, com a presença de Antonio Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda, e Ibrahim Eris, ex-presidente do Banco Central (orientado por Georgescu na Universidade Vanderbilt, nos Estados Unidos)

Na ocasião, será lançada pela Editora Senac a versão brasileira de O Decrescimento – Entropia – Ecologia – Economia, livro de Georgescu apresentado e organizado por Jacques Grinewald e Ivo Rens.

Que não se entenda por mensagem anticapitalista o título Decrescimento, escreve o professor José Eli da Veiga no prefácio da obra: um dos principais legados deixados por Georgescu foi o de cruzar o conhecimento econômico com o da Física e o da Biologia e lembrar os economistas – ortodoxos ou heterodoxos – dos limites biofísicos do crescimento. Lançou a ideia de que a economia depende da capacidade de recarga da natureza e dos limites ecológicos, portanto, não poderia ser distanciada das Ciências Naturais e tampouco estaria imune, obviamente, à 2a lei da termodinâmica, que trata da entropia.

A ideia é incômoda o bastante para que Georgescu fosse de certa forma banido do círculo hegemônico dos economistas. Segundo Veiga, Paul Samuelson fez parte da manada que condenou o romeno ao ostracismo por considerá-lo adepto da Ecologia, “área do conhecimento que nos anos 1970 os economistas consideravam tão esotérica quanto a quiromancia”.

No prefácio, Veiga conta que, quando Georgescu publicou sua obra-prima (The Entropy Law and the Economic Process, Cambridge University Press, 1971), deixou de ser simplesmente ignorado para ser explicitamente censurado.

“Como diz o professor Eleutério Prado (da USP), ele ‘se transformara num crítico da modelagem mecânica da teoria econômica’ (…) passando assim a ser ‘ameaça à teoria neoclássica, quando essa teoria entrava já na sua fase de decadência e se tornava mera religião’.”

Uma das poucas e recentes luzes sobre Georgescu  foi lançada – em português – por André Cechin em 2010, com o livro A Natureza Como Limite da Economia: a contribuição de Nicholas Georgescu-Roegen, em co-edição da Editora Senac São Paulo/Edusp e apoio da Fapesp.

Crescimento é um mantra a ser substituído pela ideia de desenvolvimento sustentável. Ou, ainda, por prosperidade.

Ouçamos o que poderá dizer Delfim Netto, que conviveu com Georgescu no início do programa de pós-graduação do departamento de Economia da FEA e, segundo Veiga, não esqueceu a seguinte reflexão do mestre: “É inexorável que um dia o desenvolvimento tenha um encontro com a realidade”.

Lembrança essa resgatada pelo economista brasileiro no artigo “Encontro com a Realidade”, publicado por  CartaCapital de junho de 2012. Também em junho, por conta da Rio+20,  Delfim afirmou a O Globo que seria possível o Brasil crescer 5% sem destruir a natureza.

Sim, o desenvolvimento pode se dar sem destruição, e é desejável que assim seja para que possa ser chamado de sustentável. Mas o crescimento constante é tecnicamente impossível, por mais que a ideia seja incômoda.

A questão é: em vez de colocar a Economia como o sistema maior que engloba o meio ambiente, a perspectiva deve ser inversa. Que tal mudar a perspectiva e aceitar a Economia com um subsistema do sistema ambiental, sujeita a seus limites biofísicos?

Assim, a pergunta a que Delfim talvez devesse responder é: até que ponto os limites ambientais – naturais, energéticos, climáticos – podem restringir o crescimento? E como garantir a prosperidade quando o crescimento não for mais possível? A macroeconomia ainda deve essas respostas.