O Dia Internacional da Mulher já passou faz tempo, mas reverberam pelos meus ouvidos durante os demais 364 dias do homem aquelas notícias enaltecendo as conquistas da mulher na sociedade e no mercado de trabalho. Postos de chefia que estamos duramente conquistando centimetricamente.  A equiparação salarial que avança em nanopassos, mas avança, para corrigir distorções históricas. Os perfis de executivas incríveis que relatam a jornais e revistas atos de heroísmo pessoal e profissional. Que lindo, We did it!, já dizia uma chamada de capa da The Economist

Não, não conseguimos. As conquistas das quais nos orgulhamos, duro reconhecer, não são nossas. Quem está vencendo não são as mulheres, mas sim o outro lado da força: um sistema masculino e masculinizante. Quando nós, mulheres, alcançamos um posto de chefia e nos desdobrando em mil pedacinhos, não estamos pondo a nossa bandeira lá. Ao contrário: é o sistema que está fincando mais uma bandeirinha em nós, nos arregimentando para um jeito de produzir, consumir, competir e conquistar que está levando boa parte do mundo ao colapso.

Um jeito que não respeita ciclos, que não sabe esperar para recomposição natural dos recursos, que aborta projetos de longa maturação em prol de resultados trimestrais, que foi construído de um jeito em que nos sentimos mal quando precisamos sair do trabalho para buscar o filho na escola ou deitar com uma bolsa de água quente quando temos cólica. Um mundo mais bélico e assertivo, menos intuitivo e flexível. Incrível que esse jeito pouco feminino de administrar a “casa” seja dominante, embora esteja fazendo tantos estragos nesta era patriarcal.

E, diante disso, o que fazemos, nós, mulheres? Arduamente buscamos nos adaptar a esse sistema.  Mais que isso, aspiramos altos cargos nele, ajudando a mantê-lo com mais medalhas espetadas no peito, enquanto criamos nos nossos filhos à essa imagem e semelhança, para que assim essa cultura perdure por gerações.

Obviamente, esta não é uma guerra dos sexos e nem do bem contra o mal. Há mulheres “masculinizadas” e machistas, e homens vice-versa. Não é o gênero que determina a personalidade e nem o jeito de ver o mundo e se lançar nele.

Eis que um fato bem concreto põe mais um elemento nessa história. O Senado aprovou nesta terça-feira, 19, a PEC das Domésticas,  Proposta de Emenda Constitucional que amplia os direitos dos trabalhadores domésticos que a sociedade patriarcal  – e, no caso brasileiro, de herança escravocrata – produziu aos milhões. Contabilizando empregadas domésticas, faxineiras, jardineiros, motoristas e toda a legião a mais de serviçais, o Brasil figura no topo do ranking mundial em número: são 52,6 milhões, ou 13,7% do total de trabalhadores domésticos de todo o planeta, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

A possível aprovação da PEC na semana que vem (com segunda votação no Senado e dispensando sanção presidencial) vai onerar os custos do empregador e possivelmente transformar esse serviço até então relegado ao quartinho-dos-fundos-em-que-mal-cabe-uma-cama em um artigo de luxo, para poucos. Tenderá a ser um serviço mais profissionalizado e até mesmo executado por empresas especializadas de limpeza e alimentação.

Dizem alguns que a medida prejudicará as domésticas, pois com a oneração vão perder postos de trabalho como mensalistas. Aí pergunto: isso não é bom? Uma mudança estrutural que reduza postos de serviço pouco qualificados e abra mão-de-obra para postos mais profissionalizados, seja em limpeza e manutenção, seja em comércio, seja em escritórios, não é um avanço? Uma mudança que dê a elas mais tempo de buscar maior escolaridade e qualificação fará com que estejam aptas a trabalhar com computadores e máquinas, como atendentes em lojas, caixas de supermercados, auxiliares administrativas, como operárias em fábricas. Buscando formação técnica ou mesmo superior. Ou empreendendo.

E o que issso tem a ver com a questão das mulheres? Tem a ver que o serviço doméstico, esperamos, não poderá mais ficar concentrado na mão feminina, seja esta a da empregada ou da dona da casa. Pelo aumento brutal no volume doméstico e com as mulheres trabalhando fora, as tarefas de casa terão de ser melhor distribuídas dentro da própria família, com marido e filhos, como acontece no mundo mais civilizado.

Aí, sim, o Brasil estará se aproximando de uma realidade comum a países mais desenvolvidos, onde os homens, ainda que queiram, não conseguem exercer tanto o seu machismo. Precisam encarar a pilha de louças, o cesto de roupa suja, a comida e a fralda com cocô.  E os filhos precisam ajudar desde pequenos, em vez de mandar a empregada fazer as coisas, muitas vezes esquecendo-se até mesmo de pedir “por favor” e falar “obrigado”.

Essa é uma mudança silenciosa, mas que pode ser muito profunda. Por exemplo, ao fazer com que as mulheres brasileiras (ainda mais sem apoio do Estado para cuidar de suas crianças enquanto trabalham, ao contrário do países desenvolvidos), tenham de colocar suas condições: flexibilidade, tolerância, conciliação. Poder conciliar o cuidado com os filhos e a casa enquanto trabalham, utilizando-se de jornadas flexíveis e homeoffice, buscando trabalhos que façam mais sentido em suas vidas, usando o trabalho para viver, em vez de viver para o trabalho.

Aí, quem sabe, os homens, com acúmulo de tarefas também domésticas, comecem a ver esse caminho alternativo de organizar o tempo, as tarefas, as rotinas, o cuidado com o outro, a colaboração. E descubram pazer no tempo livre, nos trabalhos manuais, na vida caseira, no relacionamento com a família, os vizinhos, os amigos, a pausa para o bolo recém-saído do forno. Um bem estar que a vida pode oferecer, mas que na correria masculinizante, nem percebemos que existe. Embora more bem dentro de nossas casas.

Em síntese, penso que não devemos aspirar igualdade de condições e oportunidades nesse sistema patriarcal que é tão falho. Isso seria o mesmo que corroborar com ele. Bem diferente disso, o que devemos fazer é – mulheres e homens –  contribuir para  "feminilizar"  o sistema.