Fazenda na BR-317, no Acre

Fazenda na BR-317, no Acre

A ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira conseguiu confirmar, na noite de sexta-feira, um importante objetivo de campanha: fazer com que a International Finance Corporation (IFC), braço para setor privado do Banco Mundial, voltasse atrás em sua decisão de financiar a expansão na Amazônia do frigorífico Bertin, objeto de um contrato em março de 2007.

Fontes internas do IFC, em Washington, confirmaram a Roberto Smeraldi, diretor da entidade, que o banco já decidiu cancelar o contrato com o frigorífico – maior exportador do Brasil e segunda empresa do setor no mundo – e solicitar o imediato pagamento do valor ainda pendente, equivalente a US$ 30 milhões. O banco também convocou uma reunião interna no final do mês para avaliar os próximos passos.

Smeraldi disse que, desde 2006, Amigos da Terra tem mantido informada a diretoria do IFC sobre as graves violações de sua política que o empréstimo, de US$ 90 milhões, representava. Junto com as entidades do GT Florestas do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais, alertou o conselho do banco para a falta de estudos sobre os impactos e para os impactos que seriam gerados pelo aumento de sua capacidade industrial em três estados da Amazônia. Depois, chegou a informar o conselho sobre o fato de que os documentos submetidos para a aprovação interna apontavam para informações substancialmente diferentes da realidade. Mesmo assim, o empréstimo foi assinado.

Sucessivamente, se confirmaram todos os desdobramentos antecipados pela entidade. A Bertin não só seguiu comprando gado de produtores ilegais, mas ampliou suas compras na região, afetando terras indígenas e florestas de forma crescente. Objeto de multas milionárias por parte do Ibama, procurou sustá-las até que foram objeto de divulgação pública. Em abril deste ano, no relatório A Hora da Conta, Amigos da Terra denunciou que a Bertin realizava, em sua planta de Tucumã, compra de gado de São Félix do Xingu, algo que contrariava um compromisso assumido com a IFC em janeiro de 2008.

O Ministério Público Federal usou amplas partes de referido relatório de Amigos da Terra para entrar, na semana passada, com uma ação contra a empresa, inclusive com pedido de indenização milionária por danos provocados. Também na semana passada, a Greenpeace divulgou os mapas georeferenciados de diversas fazendas fornecedoras da empresa, todas em condição de ilegalidade. Na última quarta-feira, os principais supermercados anunciaram o corte do fornecimento de gado amazônico da Bertin e de outros frigoríficos, atendendo assim a intimação do MPF.

- Parabenizamos o IFC pela decisão e esperamos que isso sirva de lição no futuro. Agora o importante é que o BNDES faça o mesmo: como pode um banco público seguir sócio de uma empresa com tamanhos passivos? Na segunda-feira solicitaremos a inclusão dos financiadores no pólo passivo das ações que estão correndo na Justiça Federal – promete Smeraldi.

O BNDES, no ano passado, financiou a Bertin com mais de R$ 2,5 bilhões e adquiriu expressiva participação na mesma. Segundo Smeraldi, conforme alertado no relatório de abril, chegou realmente a hora da conta.

- A hora em que os bancos acatem nossa proposta de começar financiar uma drástica redução da área ocupada pela pecuária na Amazônia, para um terço da área hoje utilizada, pondo fim a qualquer expansão – acrescentou.

Bertin culpa a crise econômica

O Grupo Bertin divulgou uma nota na qual aponta o cenário econômico atual, afetando o agronegócio brasileiro, como o que teria motivado-a a rever a velocidade da aplicação de investimentos e a formatar um planejamento para passar pela crise e se fortalecer.

- Em decorrência dessa nova realidade, a Bertin e a IFC resolvem, de comum acordo, descontinuar a parceria. A IFC continuará apoiando o projeto de sustentabilidade na pecuária, através de um projeto de assistência técnica junto ao setor em parceria com a sociedade civil.

Segundo a nota, a Bertin mantém seu compromisso com a sustentabilidade e anuncia a sua adesão ao Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável, que reúne vários representantes do setor com o objetivo de discutir e formular normas e práticas comuns capazes de colaborar com a evolução sustentável da cadeia produtiva do gado no Brasil.

Foto: Altino Machado, com informações de Amigos da Terra.