Tércio Genzini

Tércio Genzini: Acre tem o melhor atendimento

Eram 2h30 da madrugada de domingo quando o médico paulista Tércio Genzini, 42, conseguiu deixar o ambulatório do Serviço de Assistência Especializada da Secretaria de Saúde do Acre, após atender mais de 120 pacientes no Hospital de Base de Rio Branco.

Há mais de 10 anos, essa tem sido a rotina deste renomado profissional, especializado em cirurgias do fígado e pâncreas, que todo mês viaja mais de seis horas de São Paulo ao Acre para ajudar o governo estadual a enfrentar a gravidade de 3,6 mil pacientes portadores de hepatites A, B, C e D.

Tércio Gezini possui graduação em medicina e mestrado em cirurgia do aparelho digestivo pela pela Universidade de São Paulo. É sócio diretor do Hepato Clinica Médica Ltda e coordenador da pós-graduação do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo, além de coordenador médico do Centro de Pesquisas do Hepato com a Associação para Pesquisa e Assistência em Transplantes.

O grupo Hepato, que atua ainda nos hospitais Alemão Oswaldo Cruz, Albert Einstein, São Camilo (Pompéia, Ipiranga, Santana), Metropolitano, Villa Lobos e Neomater, mantém com o governo do Acre uma parceria ao custo mensal de R$ 23 mil que vem revolucionando o atendimento aos portadores de hepatites A, B, C e D no Estado.

O Hepato é um grupo médico especializado no estudo e tratamento clínico e cirúrgico de doenças do fígado, pâncreas e demais afecções do aparelho digestivo. Seus integrantes têm graduação, residência médica, especialização e pós-graduação nas melhores universidades do Brasil além de estágios e cursos de reciclagem no exterior. O grupo de médicos mantém intercâmbio permanente com os melhores hospitais americanos, europeus e asiáticos e faz parte de sociedades médicas especializadas nacionais e internacionais.

Mantém parcerias com instituições públicas e privadas de outras cidades e estados que possibilitam o acesso de pacientes distantes a tratamentos de alta complexidade em São Paulo. Destacam-se as atividades em transplantes de fígado em adultos (entre os 4 maiores grupos do Brasil em 2007), pâncreas (maior centro latino-americano e entre os cinco maiores do mundo há 5 anos) e rim (início do programa em 2007).

Tércio Genzini, que já realizou mais de 1,4 mil transplantes de fígado, conversou com o Blog da Amazônia. Leia os melhores trechos da entrevista:

Blog da Amazônia – Embora esteja cada dia mais disseminada em todo o mundo, a hepatite C tem cura?
Tércio Genzini -
Para falar de hepatite é necessário dividir entre as várias hepatites. Falar de hepatite, de forma ampla, significa qualquer doença que causa inflamação no figado. A hepatite C  é um problema mundial. No Brasil, estima-se 2% a 3% da população, com as incidências variando de 1%, nas áreas de menor prevalência, até 3% nas áreas de maior prevalência.  20% dos portadores de hepatite C desenvolvem complicações graves ao logo da evolução da doença, isto é, em torno de 20 anos após contrair a mesma. Se colocando de uma forma geral, pois a hepatite C também se divide, é possível se curar de 60% a 70% dos pacientes quando diagnosticados precocemente.

O poder público tem percepção desse problema de saúde pública?
Não a nível nacional, pois campanhas de prevenção e de diagnóstico precoce deveriam estar sendo feitas já pela situação em que nosso país se encontra. Acho que a nível regional, e eu estou me referindo ao Acre, existe esta percepção, um movimento e condições para tratamento que não existe em outros estados mais ricos.

A hepatite C é um doença que afeta mais a população pobre?
Não. Recentemente, um diretor da Apple, a grande indústria da informática, milionário, foi transplantado nos Estados Unidos por hepatite C, que é a responsável pela maior causa de transplantes de fígado no mundo. Em breve ela vai ser ultrapassada pela obesidade, que está se tornando cada vez mais um problema de saúde. A população está ficando gorda e isso está aumentando a incidência de diabetes, aumentando a incidência de resistência à insulina, de esteatose, que é a gordura no fígado, de teato-hepatite, que é a inflamação no fígado pela presença de gordura. Isso leva à cirrose tanto quanto a hepatite C. Isto está aumentando ano após ano e a gente já tem uma nova forma de doença grave no fígado. Essa incidência é resultante dos maus hábitos alimentares e de vida da população.

Quem são os maiores investigadores de hepatite C no mundo atualmente?
É a indústria farmacêutica, com auxílio das universidades norte-americanas, européias e até asiáticas.  Hoje, a globalização permite que os protocolos, assim que surgem novas drogas, os estudos se desenvolvam mundialmente. Assim que uma nova medicação é descoberta, se começam estudos em vários centros do mundo e o Brasil participa em vários desses estudos. Então podemos acompanhar, com leve defasagem de tempo, todos os tratamentos disponíveis.

Existe alguma droga para substitutir o inferferon?
Por enquanto, não existe droga para substituí-lo. Existem drogas novas, que são anti-virais, que vão melhorar o resultado do tratamento com interferon para os pacientes não respondedores. Quem é tratado durante muito tempo com inerferon e ribavirina, que é  tratamento padrão, mas não consegue resultados, já existem drogas capazes de melhorar o resultado nessa população.  Talvez agora, no final deste ano, algumas delas já estejam disponíveis no mercado.

Como explica a prevalência tão acentuada de hepatite C no Acre?
Acho que esse problema é histórico porque vem de hábitos, de condições de saneamento básico. Uma vez que surgiu a primeira pessoa infectada, essa pessoa, compartilhando objetos pessoais com outras, seja um lâmina de barbear, uma tesoura, ou ela freqüentando ambientes onde esses objetos são utilizados, como num salão de beleza, por exemplo, ou participando de grupos que compartilham os mesmo objetos para aspirar ou injetar drogas. Ou até mesmo se relacionando sexualmente de forma promíscua. Todas essas atitudes juntas contribuíram para a disseminação da doença. Quando se tem uma população menos informada, com condições sócio-econômicas-culturais um pouco piores, é um prato cheio para a doença se alastrar. Acho que isso aconteceu no Acre há 20 ou 30 anos e hoje se paga o preço desse período que existiu no passado.

O que aconteceria se toda a população do Acre fosse submetida a exames para diagnóstico? Teríamos 70% da população infectada pela hepatite C?
Creio que não. Seria um número muito alto. Para hepatite C estima-se, aqui no Acre, entre 2,5% e 3%. Para hepatite B, em algumas áreas, são conhecidas cifras em torno de 60% de contato, mas não de pessoas infectadas. São pessoas que tiveram contato com o vírus. Mas é bom lembrar que, no vírus da hepatite B, 90% das pessoas eliminam o vírus e ficam apenas com os anticorpos. Detectando-se esse anticorpo, sabe-se a pessoa teve ou não contato. Da hepatite C, no Acre, o estimado é entre  2,5% a 3%. É um número elevado, embora não seja tão elevado quanto no Egito, por exemplo, onde essa incidência chega a 10%, assim como alguns países da Ásia e da África. Mais a o sul do país, a incidência fica entre 1% e 1,5%. Essas são estatísticas que foram feitas por universidade e pelo Ministério da Saúde.

O Acre avançou no enfrentamento deste problema de saúde pública?
Sim, tanto em diagnóstico quanto em tratamento. O tratamento está disponível e se consegue tratar pacientes de forma prolongada como não se consegue em outros locais, onde os protocolos são mais rígidos porque só admitem tratamento em quem tem maior chance de sucesso. No Acre, não. Aqui são tratadas também as pessoas com menor chance de sucesso. E temos tido alguma demonstrações de sucesso, o que acaba trazendo uma recompensa.

Esses protocolos levam em conta o custo?
Sim, com certeza.

Quanto custa o tratamento de um paciente com hepatite C?
O custo é alto e não sei qual a cifra do governo, pois quando o governo trata com a indústria farmacêutica se estabelece outros tipos de acordos. Mas se um paciente tivesse que comprar a medicação, o custo dela não seria inferior a R$ 5 mil ou R$ 6 mil mensais.

Além desse protocolo mais aberto, o que o sr. considera como relevante no Acre no enfrentamento da hepatite C?
Aqui a sociedade se organizou bem através da Associação dos Portadores de Hepatite, foram realizadas várias campanhas, se aproximou do governo, estabeleceu parcerias com a iniciativa privada. Hoje, vários profissionais do país vêm aqui para estudar e tratar hepatite, para trazer conhecimento e também aprender com o desenvolvimento local.  Muitos médicos locais estão fazendo teses em cima do tema hepatite, estão se aprimorando cada vez mais. Em breve deveremos organizar algumas campanhas de detecção, pois hoje a hepatite se diagnostica através do exame da ponta de dedo. Existem testes rápidos, que são testes validados pela indústria, que podem ser feitos e dar o diagnóstico. Esperamos alcançar populações que até hoje desconhecem.

Qual a importância do diagnóstico?
A importância do diagnóstico vai muito alem do tratamento. Tratar é uma coisa, mas, com o diagnóstico, se pode se prevenir contra a disseminação da doença. Uma vez diagnosticada a hepatite C em alguém, essa pessoa é orientada a mudar seus hábitos e tomar precauções juntamente com seus familiares. Não disseminar a doença é tão importante quanto tratar a doença.

Existe uma parceria do Hepato com o governo do Acre. Como funciona?
O atendimento normal, a longo da evolução da doença, é todo feito no Acre, onde existem todas as condições par isso. A medicação é mais fácil de ser obtida aqui do que em outros locais. A questão dos exames diagnósticos já existe uma organização. Há o que ser melhorado ainda, mas se está alcançando um padrão muito melhor do que o alcançado há alguns anos. E eu posso afirmar isso porque venho ao Acre há mais de 10 anos. Quando o paciente atinge uma fase em que  necessita de um atendimento de alta complexidade que o Estado não dispõe, como uma hemorragia digestiva não tratada endoscopicamente, ou tem um câncer de fígado ou necessita de um transplante, desenvolvemos uma parceria que já conta com dois hospitais em São Paulo – a Beneficência Portuguesa e o Bandeirantes, que já recebe esses pacientes e resolve esse tipo de problemas. Temos mais de mil leitos disponíveis para qualquer tipo de paciente, seja qual for a condição sócio-econômica dele. Ele é atendido no Acre por um médico local, que faz parte desta parceria, ou pelo ambulatório da Hepato que vem aqui a cada dois meses. Ele tem uma casa onde ficar em São Paulo, pois muitos pacientes ficavam sem tratamento porque não tinha onde ficar no passado. Quando ele melhora, retorna e continua sendo acompanhado.

Essa estrutura é para que tipo de paciente?
É para pacientes graves, que necessitam de tratamento fora do Estado. Não é destinado a todo mundo que necessita tratar do fígado, pois a maioria pode ser tratada no Acre mesmo. Existem os profissionais médicos, multidisciplinares, recurso diagnóstico e a medicação. Para os casos que precisam de tratamento fora de domicílio,  casos graves, que não podem ser tratados no Acre, temos lá aquela estrutura que contempla todas as pessoas do Estado. Dentre as pessoas que necessitam só não fazem tratamento quem não quer, quem não tem um acompanhante, isto é, quem não tem uma condição social ou cultural. Conseguimos resolver o problema de saúde, mas não conseguimos o resolver o problema de ter ou não um acompanhante.  O paciente que está na casa de apoio e fica bom e melhora, ele tem que sair para dar luar a outro paciente. Ele não poder querer morar na casa, aliviando o problema da família. Isso deixa de ser um problema médico e passa a ser um problema social.

É inegável que o fato do senador Tião Viana ser médico infectologista contribuiu pesadamente para essa nova realidade do tratamento dos portadores de hepatite C do Acre.
O senador Tião Viana foi um catalisador de todo esse processo, pois sempre estimulou a nossa vinda para cá, sempre incentivou o estabelecimento desse contrato, que é uma parceria público-privada de sucesso. Nós atendemos entre 120 e 130 pacientes em cada vinda ao Acre, basicamente de pacientes triados, em situação grave. São pacientes que normalmente procurariam atendimento em outros locais, mas que acabam ficando no Acre. Desses 120 ou 130, nós selecionamos 10% para atendimento fora de domicílio. Portanto, é uma grande economia para o Estado e melhora a situação das famílias, que não precisam se deslocar. Há 10 anos não existia nada. Hoje, o ambulatório está informatizado, as enfermeiras treinadas já inscrevem os pacientes, tudo com prontuário eletrônico, médicos treinados. Tudo isso traz uma compensação indireta pra gente, um grau de satisfação. Bem, mas isso em breve deve acabar, pois a gente tem os limites do cansaço físico. Mas quando acabar tenho certeza de que vou ter deixado uma estrutura que vai continuar beneficiando as pessoas. E vamos continuar como retaguarda em São Paulo. Além disso, muita gente começa a ser atraída por este trabalho. Gente de fora começa a vir pro Acre, pessoas do Acre deixam de ir para fora.