Fogo se espalha no interior da floresta nativa

Fogo se espalha em projeto inaugurado por Lula

Mais de 500 hectares de floresta nativa do Assentamento Nova Bonal, no quilômetro 75 da BR-364, em Rio Branco (AC), já foram consumidos pelo fogo. Na área, de 10,4 mil hectares, 200 famílias participam de um projeto de desenvolvimento sustentável que consorcia basicamente o plantio de seringueiras e pupunha.

Equipes de bombeiros já estiveram na área duas vezes para combater os focos de incêndio, mas não foram capazes de impedir que o fogo voltasse a causar sérios danos à área de floresta remancescente de uma antiga fazenda. Uma terceira equipe será enviada nesta sexta-feira (5) para a área do projeto, que foi inaugurado em janeiro de 2006 pelo presidente Lula.

A reportagem apurou que o governador do Acre, Binho Marques (PT), vai anunciar na segunda-feira (9) medidas mais enérgicas de combate às queimadas e de prevenção ao crescente risco de incêndios florestais na região.

O governo estadual demorou a agir durante a estiagem amazônica, em 2005, quando mais de 200 mil hectares de florestas foram devastados por megaincêndio na região leste do Acre.

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Naquele ano, os satélites registraram 22,9 mil focos de calor. No ano seguinte, foram registrados apenas 4,8 mil focos de calor. Em 2008, a quantidade caiu para 2,7 mil focos e no ano passado foram registrados apenas 1,3 mil. Neste ano já foram detectados 330 focos de calor.

O pesquisador Foster Brown, da Universidade Federal do Acre e do centro de pesquisa americano Woods Hole, percorreu a floresta nativa afetada pelo fogo no Assentamento Nova Bonal.

- Minha preocupação é com a certeza de que outras áreas estão sob o mesmo risco de incêndios florestais na região leste do Acre – afirmou.

Segundo Brown, a estrutura de equipamentos e pessoal  é insuficiente para que o governo estadual possa controlar sozinho os focos de incêndios, o que demanda a participação da comunidade do assentamento.

- Não existe água disponível na Bonal. As pessoas estavam andando meia hora para abastecer suas bombas costais – relatou o pesquisador.

Quando o fogo alcança a floresta é extremamente difícil o controle porque penetra troncos de arvores e, a partir disso, passa muitos dias queimando. Outro fator é que nem toda a vegetação queima de uma vez. O calor do fogo também seca muitas arvores, as folhas e galhos pequenos caem, acumula-se mais material orgânico, e a área se torna ainda mais vulnerável.

- A sociedade precisa trabalhar junto porque a capacidade do estado se torna insuficiente em situações com essa. Do contrário, teremos um situação muito difícil, caso continue sem chuvas nos próximos dois meses – alerta Brown.

Utopia

Quando inaugurou o Assentamento Nova Bonal, o presidente Lula disse que ele permitiria a combinação de explorar parte da madeira da área e, ao mesmo tempo, plantar frutas e seringueiras junto com as árvores nativas, sem necessidade de desmatamento.

- É um projeto extraordinário porque é um ciclo completo, ou seja, as pessoas produzem, as pessoas industrializam e as pessoas comercializam os seus produtos. Esse projeto é a confirmação, a certeza de que a reforma agrária pode ser feita de forma muito mais civilizada, muito mais moderna do que historicamente o Brasil conhece – disse Lula na ocasião.

A origem do assentamento é a fazenda Bonal, implantada no começo da década dos 1970, que serviu de base de operações e exploração de seringa, madeira, agricultura e pecuária por um consórcio internacional de capital privado da Bélgica.

Os investidores estrangeiros se desinteressaram da exploração e o governo federal, através do Incra, se apresentou como principal interessado na aquisição. O negócio foi feito com recursos públicos da ordem de R$ 10 milhões, pagos com TDA (Títulos da Dívida Agrária).

A infra-estrutura do lugar -casas, açudes, gado e outros bens nos quais se incluem a terra e, principalmente, a floresta- foi transferida para as mãos de ex-empregados da empresa e famílias assentadas no local.

O governo estadual apresenta o Assentamento Nova Bonal como modelo para reforma agrária e exploração econômica de terras na Amazônia. De acordo com o governo, ali, com a participação dos movimentos sociais e da própria comunidade, se materializa a utopia de uma comunidade de gestão coletiva, onde ninguém é proprietário isolado de nada.

Não houve demarcação de lotes, a organização social é baseada na célula familiar e a promessa era de que não haveria desmatamento porque a floresta será totalmente destinada ao manejo de base comunitária.

Fotos: Foster Brown ( 1 e 3); Divulgação (2)