mandioca

Quinta-feira passada, 19 de abril, foi “dia do índio”. Uma justa homenagem. A eles, devemos muito. Sobretudo em nossos hábitos alimentares. Quando aqui chegaram os portugueses, “homens andavam pela praia…pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse as vergonhas. Traziam arcos nas mãos, e as suas setas”, segundo Pero Vaz de Caminha. Pelo colonizador, foram chamados “negros da terra”. Ou “índios” – assim como também fez Colombo, ao chegar à terra que um dia seria Cuba. Nos dois casos, porque pensavam estar nas Índias.

Nossos índios tinham alimentação simples, variada e sobretudo saudável. Comiam o que a natureza lhes podia oferecer. E não se deslocavam à procura de alimentos, salvo raríssimas exceções – como em tempos do caju ou da pesca de alguns peixes. Eram “caçadores sem cães, pescadores sem anzóis e plantadores sem enxada”, segundo o naturalista alemão Karl von den Steinen (1887). Pescavam camarão, caranguejo, lagosta, marisco, ostra, pitu e peixes em geral. Muitos desses peixes, aliás, conservam, até hoje, o mesmo nome dado por eles – baiacu, beijupirá, camurim (chamado no sul de robalo), carapeba, jaú, piaba, pirarucu, surubim, tainha, tucunaré. Caçavam – cobra, jacaré, lagarto, tartaruga e porco selvagem do mato. Aves, também – arapuã, araponga, curió, jandaia, patativa. E insetos, muitos deles repugnantes aos civilizados – besouro, gafanhoto, cupim, tapuru. Tanajura, também, hábito que se conserva até hoje em muitas cidades do interior do Brasil.

Apreciavam frutas – abacate, abacaxi, abajeru, açaí, abiu, ananás, caju, goiaba. Gostavam de pacova – cruas, assadas ou sob a forma de mingaus. Mas tinham especial preferência pelas raízes – cará (semelhante ao inhame vindo da África), batata-doce, e sobretudo mandioca, o principal ingrediente de toda a dieta indígena, presente em todas as suas refeições. Dessa mandioca faziam beiju, farinha (do mesmo jeito que se faz até hoje), mingau e pirão. Se alimentavam ainda de amendoim, milho e da folha não desenvolvida da guariroba – chamada precipitadamente, por Gabriel Soares de Souza, de palmito. Folhas não. Essas folhas chamavam “cumbari”. Era comida de brincadeira – leve, sem sabor, sem sustança.

Conheciam o fogo, e sabiam acendê-lo pela fricção de varas – que o choque pelo sílex veio só com os portugueses. Esse fogo era usado para aquecimento de ocas, como instrumento de defesa ou no preparo da comida. Assavam carnes e peixes no moquém – espetos paralelos, sobre a brasa, precursores dos churrascos de hoje. Como tempero usavam pimenta. Às vezes pura. Às vezes numa mistura com água do mar, a que chamavam “ionquet”, colocada diretamente na boca, junto às carnes.

Raramente cozinhavam os alimentos na água. Quando o faziam, usavam potes de cerâmica. Não conheciam fritura – técnica aprendida só bem depois, com os portugueses, que para isso usavam óleos vegetais (de oliva) e gordura animal. Nem conheciam açúcar. Doce, na cultura dessa gente, era mel de abelha. Consumido puro, por gulodice. Ou misturado a raízes e frutas, na preparação de bebidas fermentadas – alué, açui, tiquira e cauim (a mais prestigiada das bebidas indígenas).

A esses índios, devemos um pedaço da nossa culinária. Da nossa maneira de ser. De nosso temperamento. Pena que a história brasileira não celebre nenhum herói indígena. Nem mesmo personagens, especialmente notáveis, como o tupiniquim Tibiriçá, que ajudou o colonizador na formação de São Paulo (1562); o temiminó Araribóia (“cobra feroz”, em tupi), que ajudou a vencer os franceses de Villegaignon, no Rio (1567); ou o potiguar Felipe Camarão, que contribuiu para derrotar os holandeses de Nassau, em Pernambuco (1649). Santo de casa não faz mesmo milagres.

RECEITA:
CREME DE MANDIOCA

INGREDIENTES:

½ kg de massa de mandioca;
6 colheres de sopa de açúcar mascavo;
1 colher de sopa de manteiga;
1 colher de chá de sal;
1 ½ copo de leite de coco;
3 copos de água;
3 gemas;
4 colheres de sopa de castanha de caju (picadas e torradas);
Doce de ameixa em calda.

PREPARO:

- Lave, torça e peneire a massa de mandioca. Junte a água. Leve ao fogo.
– Junte gemas, açúcar, sal e 1 copo de leite de coco. Mexa bem até engrossar.
– Coloque o restante do leite de coco. Junte a manteiga. Mexa.
– Retire do fogo e coloque as castanhas. Sirva em pirex, coberto com o doce de ameixa (200 gr de ameixa, 1 copo de água e 150 gr de açúcar. Deixe no fogo até que as ameixas estejam cozidas).

Lectícia Cavalcanti coordena o caderno Sabores da Folha de Pernambuco, escreve na Revista Continente Multiculturale no site pe.360graus.

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