Camarãp Pitu

Nossos índios sempre apreciaram comidas de rio e de mar. Explicando-se essa preferência por seu sabor, claro; mas também por serem, em relação aos animais de terra e ar, aqueles mais fáceis de serem capturados. Ainda hoje se encontram, ao longo do litoral, restos fossilizados de ostras, conchas, mariscos, camarões, lagostas caranguejos, siris e aratus, junto a pedaços de seixos lascados, pontas de lança ou flechas, potes de barro e outros objetos usados na preparação de crustáceos pelos nativos.

O nome vem do latim crusta (carapaça dura). Porque são todos dotados de carapaças – renovadas, nos jovens, para permitir seu crescimento, a cada duas semanas. Nos adultos menos, só duas vezes por ano.

Entre os nossos crustáceos, destaque absoluto para os camarões. De mar ou, muito mais saboroso, de água doce. Pero Vaz de Caminha dá testemunho: “alguns índios foram buscar mariscos e apenas acharam alguns camarões grossos e curtos, entre os quais vinha um muito grande camarão e muito grosso, que em nenhum tempo o vi tamanho”. Falava do mais famoso dos camarões de rio – o pitu. Como contraponto à pesca artesanal desses camarões de rio, desenvolve-se agora uma criação industrial (especialmente da espécie “Vennamei”, vinda do Equador). Com o cultivo em viveiros. Sobretudo no Nordeste.

Por termos, aqui, clima e temperatura de água ideais para essa criação. Com o pitu o pirão pitinga é acompanhamento perfeito. Pirão é receita que nos veio dos índios. Eles costumavam juntar farinha de mandioca a todos os caldos. A essa papa grossa chamavam “pirõ”. Pitinga vem do tupi “pe’tinga” – pequeno camarão de casca muito clara. Com o tempo passou a significar, também, tudo que era muito branco, muito pálido. O pirão feito com a massa de mandioca fica mesmo muito branco. Quase transparente.

RECEITA:
PITU COM PIRÃO PITINGA

INGREDIENTES PARA O PITU:
5 kg de pitu, leite de coco grosso retirado de 3 cocos, 3 cebolas grandes, 4 tomates, 1 pimentão verde, 2 pimentões vermelhos, coentro, cebolinha, azeite de oliva, sal e pimenta.

PREPARO:

- Retire barbatanas. Corte logo acima dos olhos para retirar os intestinos. Lave os pitus. Tempere com sal e limão.
– Cozinhe os pitus em panela grande com água e sal até mudarem de cor (ficarão bem vermelhos). Escorra, descasque e reserve.
– Em outra panela refogue no azeite cebola, tomate, pimentão e cheiro verde. Junte o leite de coco e deixe ferver bem. Retire o pimentão verde e o cheiro verde (para não escurecer o molho) e passe todo o resto do molho no liquidificador, e depois na peneira. Volte para o fogo. Junte o sal e a pimenta.
– Acrescente o pitu e desligue o fogo. Sirva em travessa grande – colocando primeiro o pirão pitinga e depois o pitu com bastante molho. Regue com fio de azeite.

INGREDIENTES PARA O PIRÃO PITINGA:
½ kg de massa de mandioca, 2 cebolas grandes cortadas em rodelas, azeite de oliva, ½ litro de leite de coco, ½ litro de leite, sal.

PREPARO:

- Deixe a massa de molho numa tigela coberta com água. Quando toda a massa assentar no fundo da tigela, escorra a água.
– Refogue a cebola no azeite e leve ao liquidificador. Vá colocando a massa aos poucos junto com o leite de coco e o leite de vaca. Depois de bem batido, passe a mistura pela peneira.
– Leve ao fogo, mexendo sempre, para não emboloar. Tempere com sal. Se necessário, junte mais leite de coco. Até ficar transparente, com consistência de mingau grosso.

Lectícia Cavalcanti coordena o caderno Sabores da Folha de Pernambuco, escreve na Revista Continente Multiculturale no site pe.360graus.

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