Os cultos afro-brasileiros celebram sábado os Santos gêmeos, Cosme e Damião. Enquanto na Igreja Católica é um dia antes (sexta-feira 26); porque, segundo o calendário católico, 27 de setembro já é dia de São Vicente de Paulo.

Só para lembrar, os nomes originais dos santos eram Acta e Passio. Viveram na Síria e na Armênia, pregando o cristianismo e, segundo eles próprios, “curando as doenças em nome de Jesus Cristo e pelo seu poder”. Passaram depois a ser conhecidos como Cosme (O Enfeitado) e Damião (O Popular).

Perseguidos e mortos por Diocleciano (303), acabaram padroeiros de cirurgiões, físicos, farmacêuticos e faculdades de medicina em geral. Além de barbeiros e cabeleireiros. Ontem e hoje – em missas, procissões e festas nos terreiros – mais uma vez vivenciamos essa mistura sagrada de hábitos que integram nossas três culturas: a portuguesa, a africana e a indígena.

A devoção nos foi trazida pelo colonizador português, tendo sido a primeira igreja, em honra deles, construída em Igaraçu, Pernambuco (1530). Os escravos que aqui vieram, todos da África Ocidental (Angola, Costa do Marfim, Guiné, Congo), mantiveram os rituais religiosos e a fé nos deuses de sua terra distante. Inclusive nos orixás-meninos (Ibejís). Mas aprenderam a sincretizar com os santos católicos, cujos cultos lhes eram impostos.

Na festa manda a tradição distribuir brinquedos e doces com a criançada; porque, segundo se acredita, só assim serão atendidos os pedidos feitos aos Santos. Mas em alguns lugares, especialmente na Bahia, a celebração se faz sobretudo em torno de mesa farta.

Usando pratos preparados “com azeite” (de dendê, claro), usado sobretudo em peixes, mariscos e vegetais, próprios para dias de abstinência e jejum. Entre eles abará, acarajé, bobó de camarão, efó, frigideiras, maxixadas, moquecas, vatapá, xinxim de galinha; e, principalmente, o Caruru. Segundo a tradição, deve ser primeiro servido a sete crianças que o comem com as mãos, sentadas no chão.

O nome do prato vem de caá (folha) ruru (inchada), receita indígena feita originalmente apenas de ervas socadas com pimenta, no pilão. Guilherme Piso, o médico de Nassau, fez referência a ele: “A hera vulgar cararu que nasce nos campos e hortos parece mais uma espécie de bredo branco do que vermelho…Come-se esse bredo com legume e cozinha-se em lugar de espinafre”.

Depois, os escravos africanos foram acrescentando novos ingredientes: amendoim, azeite de dendê, camarão seco, castanha de caju, cebola, gengibre, quiabo. E quanto mais quiabo tenha o caruru, mais importante é o prato. O Caruru que Jacira de Odô Oyá ofereceu a Iansã, por exemplo, levava doze grosas deles – segundo Jorge Amado, no seu O Sumiço da Santa.

A receita foi depois levada de volta para África, em cada lugar recebendo nomes diferentes: calulu em Moçambique, Congo, Cabinda e São Tomé; funji de peixe, em Luanda; obbé em Nigéria e Daomé. Passa o tempo e outros pratos são, hoje, também servidos nessa festa. “Frangos, perus assados, pernis de porco, postas de peixe frito para algum ignorante que não apreciasse o azeite de dendê” – segundo o mesmo escritor baiano, agora em Dona Flor e seus Dois Maridos.

Como acompanhamentos dos pratos, arroz de hauçá, farofa de dendê e feijão fradinho. Faltando só dizer que, segundo a crença popular, em casa onde existam Cosme e Damião e seja servido Caruru no seu dia, não entram doenças, feitiços, mau olhado, esterilidade nem espinhela caída. Por via das dúvidas, portanto, melhor preparar logo o prato. Enquanto é tempo. Mesmo quem não acredite nisso.

RECEITA: CARURU

Ingredientes

2 kg de quiabo
5 cebolas
300 gr de camarão seco
250 gr de amendoim
250 gr de castanha de caju
1 colher de chá de gengibre ralado
1 xícara de azeite de dendê
Sal

Preparo

- Lave o quiabo, deixe escorrer e seque bem. Pique bem miúdo. Reserve.

- Passe as cebolas no processador. Reserve.

- Passe metade do camarão seco no processador. Reserve.

- Bata no liquidificador o amendoim e a castanha com meio copo de água. Reserve.

- Em uma panela coloque azeite de dendê. Refogue cebola e quiabo. Junte os camarões secos (os triturados e os inteiros). Depois, junte também gengibre, castanha e amendoim. Se necessário, coloque sal. Deixe no fogo, até engrossar.

Lecticia Cavalcanti coordena o caderno Sabores da Folha de Pernambuco, escreve na Revista Continente Multiculturale no site pe.360graus.

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