Amêijoas são moluscos bem pequenos, formados por duas conchas ovais. Encontradas nas costas europeias do Atlântico e do Mediterrâneo, pertencem à mesma família da lambreta e do sarnambi (ou sernambi), nas costas americanas; e do vôngole, no litoral italiano. Estão presentes, de muitas formas, em todas as mesas portuguesas: ao natural, salteadas, com arroz ou massa, na cataplasma, de cebolada, de fricassé. Sem contar a mais famosa delas, Almêijoas à Bulhão Pato. Uma invenção de João da Matta, famoso cozinheiro do antigo Hotel Bragança (Lisboa) e autor, em 1876, de Arte de Cozinha (embora a receita não apareça no livro). Foi uma das RECEITAS finalistas às 7 Maravilhas da Gastronomia Portuguesa, escolhidas em 10 de setembro de 2011. A honraria ficou com alheiras de Mirandela, queijo Serra da Estrela, caldo verde, sardinha assada, arroz de Marisco, leitão da Bairrada e Pastel de Belém. Não ganhou, é verdade. Mas bem que merecia.
O nome que é homenagem a um dos seus clientes mais assíduos, Raimundo António de Bulhão Pato (1829 -1912). Nascido em Bilbao (Espanha) “embora de pais portugueses” – segundo o diretor do arquivo histórico de Almada, Alexandre Soares. Só depois da Guerra Civil Espanhola mudou-se a família para Portugal. Membro da Academia Real das Ciências de Lisboa, Pato foi poeta, autor de teatro, colaborador de jornais e de revistas, tradutor de Saint Pierre, Shakespeare, Victor Hugo. Sem contar os muitos livros que escreveu – dos quais mais importantes foram Paquita (1866), Paisagens (1871), Sob os ciprestes (1877) e Memórias (1907). Entre seus amigos estavam Almeida Garret, Alexandre Herculano, Antero de Quental e o general Henrique Rosa – na companhia de quem introduziu um jovem sobrinho deste último no disse-me-disse das conversas literárias e na arte de beber. O mesmo que, mais tarde, viria a ser um dos maiores poetas da língua portuguesa, Fernando Pessoa. Com muito mais talento, claro, que nosso bravo Pato.
Apesar de tantas relações importantes, e de tantos livros, os dotes literários de Pato foram sempre muito questionados. Para Vitorino Nemésio, por exemplo, era só um “poeta medíocre e escritor secundário, a bem dizer sem obra”. Assim também pensava José Quitério: “Sua obra mais parece um rosário de pequeninas sensibilidades, pequeninamente contadas”, “cheia de eufemismos – etérea mansão, ditoso enleio, colo alabastrino, lânguido anelo, fronte cristalina, divinal eflúvio, viração fagueira”. “Nunca li um livro seu” – dizia, se gabando, Eça de Queiroz. O que não é de estranhar, dada sua famosa ranzinzisse. Prova disso é que em resposta a Ramalho Ortigão, que lhe pedira um esboço biográfico (para inclusão em livro a ser editado pelo Ernesto Chadron, atual Lello), escreveu: “Eu não tenho história, sou como a República de Andorra”. O mesmo Eça que chegou a caricaturá-lo, em Os Maias (1888), na pele do poeta Tomás de Alencar – um caçador sempre vestido de negro, com “longos bigodes românticos”, que se gabava de ter pontaria certeira e ser “adorador de meninas”. Tudo por ter, Bulhão Pato, o estranho hábito de ir às caçadas com “casaco de veludo e grande sombreiro castarenho, batendo perdizes nos montes e correndo lebres nos espargais”, assim o descreveu Júlio Dantas. E caças fez não apenas no além-mar. No Brasil também, quando esteve em Goiás (1868) na Quinta da Lavra e na Quinta da Capela. Para completar dizia o mesmo Dantas, por inveja talvez (não dos dotes literários, com certeza), que sua fama de dom Juan fazia “corar muitas doces velhinhas de cabelos brancos”.
Seja como for, Pato sabia mesmo valorizar as boas coisas da vida. Era, sem dúvida, um amante da boa mesa, figura bem conhecida nos restaurantes da moda, e, claro, os muitos de João da Matta. Sem contar que ganhou fama no manejo do fogão: “Se a cozinha é o homem, a sua é forçosamente vibrante, grandiloqüente, emocional e picante, puxando mesmo à lágrima”, para José Quitério. Por esse talento culinário, a revista Ilustração Portuguesa (1906) chegou a considerá-lo como um dos mais “habilitados poetas cozinheiros”; sendo seu nome cogitado, por António Forjaz de Sampaio, para patrono de uma das cadeiras da Academia de Gastrônomos que pensou fundar. E tanto isso é verdade que quatro pratos por ele criados chegaram a ser incluídos, por Paulo Plantier, em seu O cozinheiro dos cozinheiros (1905), no capítulo “Receitas inventadas e executadas por distintos artistas e escritores portugueses”: Açorda Andaluza (pão, alho, pimentões, azeite), Perdizes à Castelhana (assada na brasa, em panela de barro fechada), Arroz Opulento (arroz com miúdos da codorna, açafrão, queijo parmesão) e Lebre à Bulhão Pato (envolvida em toucinho, assada no espeto, borrifada com vinho ou conhaque).
O destino não foi generoso com Pato; que sobrevive hoje, na memória do seu povo, não por algum livro que tenha escrito, mas pela tal receita de amêijoas – “O prato mais gostado, o mais popular de sua obra gastronômica. A sua Ceia dos Cardeais, o seu Amor de Perdição, as suas Pupilas de Sr. Reitor”, segundo Forjaz de Sampaio. “É possível, é mesmo mais do que possível, que a traça tenha comido todos os exemplares da Paquita e seja o verme o derradeiro leitor dos seus versos, mas não falta nunca quem coma as amêijoas, lhe saboreie as açordas, lhe repita a lebre”. Por tudo, enfim, essa Amêijoas à Bulhão Pato ficará marcada, para sempre, na memória dos que apreciam uma boa mesa.
RECEITA: AMÊIJOAS À BULHÃO PATO
INGREDIENTES:
1 kg de amêijoas, 1 molho de coentro, azeite, 3 dentes de alho,1 limão, sal e pimenta.
PREPARO:
• Coloque as almêijoas em água e sal, para limpar a areia. Lave muito bem.
• Coloque azeite em uma panela e frite os dentes de alho. Em seguida, junte o coentro picado e as amêijoas. Tempere com sal e pimenta. Sacuda a frigideira até estarem todas abertas. Por fim, regue com suco de limão.