O filme que comemora os 50 anos de James Bond no cinema, 007 – Operação Spyfall (Spyfall, 2012), é um triunfo da série longeva iniciada com O satânico Dr. No (Dr. No, 1962), produção modesta se comparada aos recursos postos à disposição dos últimos filmes do agente secreto a serviço de sua Majestade. Em cinco décadas, poder-se-ia pensar numa exaustão bondiana, mas a filha de Albert R. Brocolli (produtor que idealizou o projeto ao lado de Harry Saltzman), Barbara, desde 2006, com a introdução de Daniel Craig, resolveu repaginar os filmes, adaptando-os mais à sua época, com um resultado surpreendente que foi Cassino Royale.

Spyfall  é um triunfo também porque não se poderia esperar muito de Sam Mendes, diretor mais para a introspecção do que para a ação, contudo, em espetáculos dessa natureza, o que vale mesmo é a estrutura de produção. Mendes, que fez o badalado Beleza americana, entre outros, introjetou sabiamente acentos intimistas dentro da estrutura narrativa, humanizando James Bond, expondo-o ao sofrimento e, também, aludindo a uma necessidade do agente ressuscitar para continuar vivendo.  Não à toa, depois da espetacular sequência de abertura, Bond toma um tiro e quase morre. Tido por morto, o filme começa com a ressurreição de Bond, e uma nova iniciação no serviço secreto.

Acentos freudianos, inclusive, se espalham no comboio bondiano, e M (vivida pela maravilhosa atriz inglesa Judi Dench) é o leitmovit da discórdia, o pomo da confusão. O vilão, aqui, em Spyfall, não se estrutura psicologicamente dentro do maniqueísmo tradicional dos filmes de Bond: Javier Bardem (ator espanhol extraordinário) é o filho rejeitado da M e não mais se tem um vilão como um cientista louco que quer destruir o mundo com suas engenhocas, mas um ex-agente ressentido que quer se vingar de sua mamãe M. Mas esta revela que seu filho preferido é mesmo James Bond, que, ressuscitado, presta exames para se tornar de novo um agente, mas, na verdade, perde nos testes, não fosse a manobra ilícita de sua protetora.

Espetáculo de ação eletrizante, Spyfall possui os ingredientes certos para envolver o espectador. E o cinema, afinal de contas, é um espetáculo, como disse certa vez Costa-Gravas num seminário soteropolitano. Um filme tem a necessidade de convencê-lo, porque, caso contrário, o cinéfilo se demite do espetáculo, renunciando à sua contemplação. Há, nesta fábula comemorativa bondiana, uma alusão à própria série, ao próprio personagem, questionando, em suma, sobre a natureza do próprio filme que se está a ver.

Nos livros de Ian Fleming, que inspiraram os filmes de James Bond, há uma espécie de nostalgia da espionagem clássica, que, no período do início da série, já não possuia o mesmo fairplay, como pode ser encontrado nas obras do mesmo Fleming e, principalmente, Graham Greene (Nosso homem em Havana, O americano tranquilo… Esta nostalgia do espião clássico foi abandonada, portando, pela série, pois, na época, a espionagem se tornara altamente sofisticada.  Há, em Spyfall, uma alusão a este pretérito, retomando, de certa forma, o tom original de Fleming. Apesar de seus 50 anos, Bond pode ser ressuscitado e ter alento para novas aventuras – como sugere os créditos finais. E a nostalgia se refere, inclusive, à própria franquia, com o aparecimento de um carro de filmes antigos com o qual os personagens seguem para a Escócia, onde se localiza a mansão velha de Skyfall, e quando se dá o embate final. Inácio Araújo, no seu comentário sobre o filme, fez uma relação, inclusive, com Onde começa o inferno (Rio Bravo, 1959), notável western de Howard Hawks. Porque no grande final os personagens estão isolados num determinado lugar, assim como os de Rio Bravo, esperando o ataque final e decisivo. Neste lugarejo escocês, berço de Bond, onde se encontram enterrados os seus familiares, tem lugar a resolução. E não se pode deixar de notar a presença, como o idoso guardião da propriedade, do grande ator inglês Albert Finney – aquele que fora tão jovem em As aventuras de Tom Jones e ator imenso em toda a sua rica carreira atualmente cumprindo a sina de seu tempo: o envelhecimento.

Se Sean Connery pode ser considerado o melhor James Bond de todos os tempos, e, realmente, é insubstituível, Roger Moore, o seu sucessor  – sem contar o breve George Lazenby, tinha uma capacidade invulgar de rir de si próprio em certas nuanças dadas à estruturação psicológica do agente 007. Depois de Moore, Timothy Dalton, Pierre Brosnan, outros, não conseguiram segurar o carisma do agente criado por Ian Fleming. Daniel Craig, um Bond mais físico, difere de todos os outros. E se provou bem na pele do espião com direito a matar. A referida paginação bondiana querida por Barbara Broccoli alcançou não somente a estrutura audiovisual do espetáculo, desde o excelente Cassino Royale, mas o próprio personagem. A cristalização da mudança está bem explícita neste envolvente Spyfall.

A utilização da cor tem uma função de acordo com as exigências da geografia da ação e há mesmo, em Skyfall, uma explosão delas, principalmente na parte que se desenrola em Macau. Não fosse a sensibilidade de Roger Deakins (iluminador preferidos dos fratelli Coen), não se teria tal caleidoscópio de tons. Os momentos de ação, sobre serem extremamente estabelecidos dentro de um ritmo eficaz, proporcionam um espetáculo coreográfico, assumindo as coisas e os objetos em cena uma produção de sentido que difere de sua representação realista tout court. O banho de um azul forte que se espraia na cena da torre, quando Bond se agarra no elevador, é exemplar nesse sentido. A mise-en-scène, na maioria dos momentos de Skyfall, assume um sentido pictórico e de êxtase numa perspectiva de hiperrealismo.

Os roteiristas do filme, ao contrário dos outros da série, expõem a fragilidade do serviço secreto, revelando ser constituído de pessoas com as suas idiossincrasias, a exemplo da personalidade de M (Judi Dench), principalmente no ato final quando expõe a sua necessidade humana de aconchego. Além do mais, como citado, M, a favor de Bond, esconde os reais resultados de seu exame de readmissão. Se a introdução do sentimento já se encontrava presente em Cassino Royale – a dor de Bond com a perda da amada, em Skyfall a figura do herói vem calejada de momentos de desânimo diante de sua sempre irrepreensível atitude perante a vida – depois de sua aparente morte, Bond vai para uma paraíso tropical onde passa o tempo se embriagando e fazendo amor. Skyfall sinaliza para um recomeço, para um começar de novo.

Singular o depoimento de M, quando cita o poeta Tennyson, e, nos seus versos, encontra-se patente esta necessidade de recomeço, aproveitando as forças passadas para continuar firme no presente. Espetáculo de ação, sim, mas um espetáculo dotado de pontos reflexivos não somente sobre os seus personagens, mas, também, sobre a própria natureza da criação. Além do mais, Skyfall é um delírio, uma feérie, um filme que procura passar por um processo de desmistificação para poder recomeçar a saga. Obra que aponta para a ressurreição da vida e da emoção, um filme que assume o seu pedágio de blockbuster sem omitir, porém, a sua condição, assumindo-a

A excelência do cast é indiscutível: Javier Bardem faz o vilão Silva numa performance perfeita (e seu talento vem sendo reconhecido internacional há muito: Antes do anoitecer, quando interpreta o homossexual cubano Reinaldo Arenas, Vicky, Cristina, Barcelona, de Woody Allen, o torturado personagem de Beutiful, de Alejandro Iñarritu, o brutal assassino de Onde os fracos não têm vez, dos Irmãos Coen, entre muitos), Judi Dench (atriz dos palcos britânicos e também do cinema, brilhante sob todos os aspectos), Ralph Fiennes (o futuro M), Albert Finney, e as belas Naomie Harris (Moneypenny) e Berenice Marlohe (a mulher de Macau – belíssima, deslumbrante), entre outros..

Filmado em locações (Londres, Macau, África…), há ainda a destacar a iluminação de Roger Deakins, que soube captar, e diferenciar, a luz de cada ambiente. Skyfall é um luxo de produção, de ritmo, de fluência narrativa, um filme completo nos limites de seu  gênero, que oferece ao espectador o prazer de estar no cinema – coisa que está ficando cada vez mais rara na atualidade.