A coluna de hoje, excetuando-se este primeiro parágrafo, não é escrita pelo colunista, mas por Jean-Luc Godard, que, antes de se tornar realizador, era um excelente exegeta da arte do filme, com "tiradas" originais e espirituosas. Publicou artigos e ensaios em diversas revistas francesas, mas, e principalmente, na "Cahiers du Cinema", onde também pontificavam os seus colegas que depois viriam a constituir a Nouvelle Vague, a exemplo de François Truffaut, Claude Chabrol, Eric Rohmer, Jacques Rivette, etc. 

"Acho que o cinema europeu se diferencia do americano no sentido de que os americanos têm o cinema no sangue, enquanto os europeus o têm na cabeça – o que é uma diferença: seriam necessárias as duas coisas. Foi o cinema americano que nos fez conhecer o cinema, que nos fez amar… Pessoalmente, conheci e apreciei Otto Preminger, Howard Hawks, enfim, quase todos os americanos, antes de conhecer os europeus. Foram eles que me fizeram compreender o que é o cinema".

"Tenho grande respeito por determinadas obras de Vincente Minnelli e, menos, por outras. Mais pelas fitas puramente "musicais" e creio que a comédia musical (quando comecei Uma mulher é uma mulher/Une femme est une femme, queria fazer uma comédia musical no sentido clássico do termo, com as cenas dialogadas interrompidas, de repente, pelas cenas de canções – por exemplo quando Ana e Belmondo reencontram-se na rua, após a cena do cabaré, pensei em realizar uma cena puramente musical, onde as pessoas cantariam na rua, como em Um dia em Nova York/On the town, mas depois percebi que isso seria uma referência excessiva) é algo que os americanos descobriram, que levaram a um grau de perfeição e, apesar de gostar muito delas, é inútil refazê-las e, em paralelo, não tinha ideias suficientes novas sobre a comédia musical. Meu filme é sobre a nostalgia da comédia musical, ou melhor, o que diz Ana – "ah! eu queria estar numa comédia musical" – era mais neste tom. Pensei então, depois fiz o diálogo e, após, com Legrand, fez uma música que dava a impressão de as pessoas cantarem muitas vezes. Quero dizer que ela está situada no mesmo tempo e sob as palavras, a fim de conferir um tom de ópera. Mas não se trata de comédia musical e, também, não é o mero filme falado. Trata-se de um lamento contra o fato de a vida não ser musicada." Entrevista – Cinema 63, número 94, em 3/65

"Havia o teatro (Griffith), a poesia (Murnau), a pintura (Rossellini), a dança (Eisenstein) e a música (Renoir). Mas, doravante, há o cinema. E o cinema é Nicholas Ray."

Essa classificação pode parecer arbitrária e, sobretudo, paradoxal. Não é nada disso. Griffith era inimigo declarado do teatro, mas do teatro de sua época. A estética de O nascimento de uma nação (The birth of a nation) ou de The exciting night (Uma noite de terror) é idêntica àquela de Ricardo III ou de As you like it. Se Griffith inventou o cinema, ele o fez com as mesmas idéias com que Shakespeare inventou o teatro. Ele inventou o "suspense" com as mesmas idéias com que Corneille inventou a suspension".

De modo igual, dizer que Renoir está próximo da música e, Rossellini, da pintura, quando é sabido que o primeiro adora quadros e, o segundo, os detesta, corresponde a dizer simplesmente que o autor de The river (O rio sagrado) liga-se a Mozart, e o de Europa 51 a Velasquez. Simplificando a grosso modo, um procura pintar os estados da alma, o outro, os tipos humanos." Au-delas des étoiles - crítica de Bitter victory, de Nicholas Ray – Cahiers número 79, em 1/58 – trecho.

"Talvez não existam mais do que três espécies de western, do mesmo modo que Balzac, um dia, assinalou que existiam três modalidades de romance: de imagem, de idéias ou de imagens e ideias, ou seja, Walter Scott, Sthendal e, enfim, ele, Balzac. No tocante ao western, o primeiro gênero se corresponde a Rastros de ódio (The seachers), de John Ford; o segundo, a O diabo feito mulher (Rancho Notorius), de Fritz Lang, e, enfim, o terceiro, a O homem do Oeste (The man of the west), de Anthony Mann. Não quero dizer com isso que o filme de John Ford é apenas uma sequência de belas imagens; nem que o de Fritz Lang está totalmente desprovido de qualquer beleza plástica ou decorativa; quero dizer, sim, que, em John Ford, é, antes, a imagem que remete à idéia, enquanto que, em Fritz Lang, ocorre principalmente o contrário e, enfim, que, em Anthony Mann, passa-se da ideia à imagem a fim de – como desejava Eisenstein -retornar-se à imagem. Super Mann - crítica de Man of the west, de Anthony Mann – Cahiers número 92, em 2/59.

"Ele está acima de qualquer elogio porque é o maior de todos. Pois, que mais dizer? De qualquer forma, é o único cineasta que pode suportar, sem mal-entendido, o qualificativo, tão deturpado, de humano. Da invenção do plano-sequência, em Campeão de boxe (The champion), àquela do cinema-verdade, no discurso final de O grande ditador (The great dictador), Charles Spencer Chaplin, permanecendo inteiramente à margem de todo o cinema, preencheu finalmente essa margem com mais coisas (que outras palavras empregar: ideias, gags, inteligência, honra, beleza, gestos) do que todos os outros cineastas juntos. Diz-se, hoje, Chaplin, como se diz Da Vinci, ou, antes, Carlitos, como Leonardo." Verbete sobre Chaplin em "Directed By" (dicionário de cineastas norte-americanos).

"Todos nós nos considerávamos, no Cahiers du Cinema, como futuros cineastas. Freqüentar os cine-clubes e a Cinemateca, já era pensar cinematograficamente e pensar no cinema. Escrever já era fazer cinema, pois, entre escrever e filmar, há uma diferença quantitativa e, não, qualitativa. O único crítico que o foi completamente era André Bazin. Os outros – Sadoul, Balázs ou Pasinetti são historiadores ou sociólogos, mas não críticos.

(…) Acossado (A bout de souffle) era o gênero de filme onde tudo era permitido, pois estava em sua natureza. Qualquer coisa que fizessem as pessoas poderia ser integrada na fita. Eu próprio parti disso. Dizia a mim mesmo: já houve Bresson e acaba de haver Hiroshima, mon amour, um determinado cinema encerra-se, pode estar acabando, façamos, então, o ponto final, mostremos que tudo é permitido. O que eu queria era partir de uma história convencional e refazer, mas de modo inteiramente diverso, todo o cinema já feito. Queria também dar a impressão de que se acabava de se descobrir o cinema e experimentar o processo do cinema pela primeira vez."