Duas mostras retrospectivas de dois dos mais importantes realizadores do cinema americano estão acontecendo e a acontecer em algumas capitais: a de Howard Hawks, com quase todos os seus filmes, a ser apresentada no Palácio das Artes (Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro) em Belo Horizonte (de 12 de abril a 12 de maio), e a de Samuel Fuller, que se findou na capital paulista no último dia 31, mas vai percorrer ainda o Rio (de 16 de abril a 5 de maio) e Brasília (de 26 de março a 14 de abril). Na mostra da capital mineira, de Hawks, há ainda programado um curso sobre o cineasta com o grande crítico da Folha de S.Paulo Inácio Araújo, Hawks, o gênio à altura do homem. Para se candidatar, o interessado deve enviar breve currículo com até dez linhas para o email cursos.cinehumbertomauro@gmail.com. A lista dos aprovados será divulgada no dia 12 de abril. Sobre a de Fuller, segundo o seu curador, a ideia da mostra era trazer todas as suas obras. Mas, devido ao péssimo estado de conservação de algumas cópias, isso não foi possível. Foi o caso de No Umbral da China. Contudo, conseguiu-se cópias novas para os filmes mais importantes.

As retrospectivas de Howard Hawks e Samuel Fuller despertam o cinéfilo adormecido com a mesmice do circuito exibidor atual para a visão (ou revisão) de grandes filmes e podem ser considerados os eventos cinematográficos (e desde já) mais importantes deste ano de 2013 que ainda engatinha. Infelizmente, como acontece com todas as mostras que estão sendo apresentadas há alguns anos (como a de Minnelli, Hitchcock, Ford, Nicholas Ray etc), elas ficam restritas apenas ao eixo Rio-São Paulo, percorrendo, algumas, Brasília e Belo Horizonte. As demais capitais brasileiras ficam, como de hábito, a ver navios.

Sou grande admirador tanto de Hawks quanto de Fuller. Comento aqui os dois melhores filmes de cada um deles. O de Hawks Onde começa o inferno (Rio Bravo), e o de Fuller, o impactante Paixões que alucinam (The shock corridor).

RIO BRAVO - Em Onde começa o inferno (Rio Bravo), resposta desse grande mestre ao ‘western’ psicológico que então emergia no cinema americano, há uma cadência que o distingue dos filmes do gênero que foram seus contemporâneos e, de certa forma, o que interessa ao autor é o estudo de comportamentos de homens numa dada situação. Excetuando-se o tiroteio final, e uns poucos tiros aqui e ali, os seus 144 minutos de projeção se concentram num espaço exíguo, a delegacia da qual é xerife John Wayne, com algumas deslocações dos personagens pelas ruas e pelo hotel onde se hospeda a bela Angie Dickinson – uma das pernas mais bonitas de toda a história do cinema.

Hawks, num faroeste, sempre sinônimo de ação e contínuo corte em movimento, predispõe seu filme – uma obra-prima! – a uma quase inação, podendo se ver, nesta obra, um estilo muito mais próximo de Michelangelo Antonioni do que de um John Ford, por incrível que isso possa parecer. Há uma escrita bem marcada na utilização dos procedimentos cinematográficos, há, em Hawks, uma constância temática e estilística. Daí poder ser considerado um verdadeiro autor de filmes. Mas, na sua filmografia, existe uma ‘diáspora’, porque nas comédias a emergência de um non sense, de uma ‘loucura’, entra em choque com seus filmes fora desse gênero, como podem servir de exemplo Levada de breca, Bola de fogo, O esporte favorito dos homens, O inventor da mocidade, entre muitos outros.

Um filme brilhante como Hatari! (1962), por exemplo, segue, na sua estrutura narrativa, um mesmo tipo de itinerário. Se em Rio Bravo os personagens esperam e, durante a maior parte do filme nada acontece de significativo, em Hatari!, eles também estão sempre a esperar pela próxima caçada, e é na espera que o cineasta aproveita para estudar a índole comportamental humana. Hatari!, que foi visto como mera fita de aventuras, é, na verdade, uma obra grandiosa, inteligente, e que propicia, ainda, o prazer do cinema, o que tem se tornado um fato raro na mediocridade contemporânea que confunde obscuridade com profundidade.

Uma vez, Jean-Luc Godard, ‘desconstrutor’ do cinema nos anos 60, realizador admirado e considerado de vanguarda, respondendo a um repórter acerca do que era o cinema respondeu-lhe: ‘O cinema é Howard Hawks’. Anos antes tinha dito que ‘o cinema é Nicholas Ray’. Não se viaja na maionese quando se está diante de um filme de Howard Hawks. Em Bola de fogo (Ballfire), desse realizador, que tem Gary Cooper e Bárbara Stanwick nos principais papéis, um grupo de eruditos se encontra há anos trancado numa casa com o objetivo de elaborar a mais perfeita das enciclopédias, quando, de repente, uma mulher, fugindo de uma confusão que envolve gangsteres, encontra nela um refúgio. Esfuziante, bela, termina por se fazer apaixonar por Gary Cooper. A mulher, aqui, é elemento deflagrador de uma reviravolta na vida dos sábios.

Ver Hawks é essencial! Infelizmente existem poucos hawks disponíveis em locadoras, mas nas televisões por assinatura de vez em quando um deles se apresenta para o prazer do cinéfilo. Esse filme, uma obra-primíssima, é considerado como um dos maiores filmes de todos os tempos, chegando mesmo, numa lista definitiva solicitada pela Folha de S.Paulo a críticos do mundo inteiro, Inácio Araújo encimá-lo como seu filme preferido. O ‘western’ em Hawks segue um itinerário, uma trajetória, um percurso: Rio Vermelho (1948), com John Wayne e Montgomery Clift, Rio Bravo, com Wayne e Dean Martin, Eldorado (1965), com Wayne e Robert Mitchum e, como canto de cisne, obra crepuscular, Rio Lobo (1970). Eldorado é uma refilmagem disfarçada de Rio Bravo, mas, mesmo, assim, filme de brilhantismo assegurado, ainda mais quando se tem presente a figura emblemática do sonolento Mitchum, que a crítica tanto desprezou quando atuava, chamando-o de canastrão e não sabendo vê-lo como um tipo, uma personalidade, um emblema.

PAIXÕES QUE ALUCINAM – Uma radiografia da sociedade americana tendo como microcosmo um hospital psiquiátrico. Fuller, cineasta que nunca teve papas na língua, ataca as mazelas do american way of life em todas as suas vertentes: o racismo, a corrida nuclear, o jornalismo, e até mesmo a psiquiatria como é praticada, que, no fim das contas, acaba a levar o homem à loucura exacerbada, tirando-lhe o livre arbítrio. Há, no transcorrer de sua narrativa, seca e direta, como um soco no estômago, três momentos nos quais as cores aparecem como exceções já que o filme é em preto e branco, que são usadas para a ilustração de delírios de pacientes. Num desses delírios, a cores, Fuller aproveita imagens de Casa de bambu (House of bamboo, 1955), obra de sua autoria que realizou anteriormente e que foi toda filmada no Japão. Para sugerir uma sensação de estranheza, já que se trata do delírio de um louco, as imagens aparecem apertadas, sem a utilização da lente anamórfica já que House of bamboo é em cinemascope.

Peter Breck é o ator que interpreta o jornalista obcecado para ganhar o Pulitzer, um prêmio muito importante para o profissional da imprensa. Para isso, se faz passar por doente com o fito de ser internado no hospital onde aconteceu um assassinato. A sua idéia é, estando dentro do asilo, agir como um detetive na descoberta do crime, e, depois, com a reportagem, a grande chance de ganhar o Pulitzer. Para conseguir o intento, estimulado pelo editor de seu jornal, conta com a ajuda da amante (Constance Towers, atriz fulleriana, a mesma de O beijo amargo/The naked Kiss, filme imediatamente posterior de Fuller), que presta queixa na polícia, mentindo, se dizendo vítima de seu irmão (o jornalista), cujos desejos mórbidos e sexuais a atormentam. Breck consegue ser internado e o que acontece com ele não é bom que seja dito aqui para não estragar a surpresa daqueles que porventura queiram vê-lo, pois ainda pode ser encontrado nas melhores locadoras. A cópia está excelente, com um preto e branco resplandecente.

Jean-Luc Godard, em seu belo Pierrot, le fou (1965), que aqui no Brasil tomou o título de O demônio das onze horas (algo surrealista, pois não há nenhuma alusão horária nem diabo), presta uma homenagem a Samuel Fuller, que aparece numa festa como ele mesmo, baixo, de chapéu, fumando seu inseparável charuto. Perguntado sobre o que era, para ele, o cinema, Fuller não hesitou e fulminou: “O cinema é ação e emoção”. O realizador, tão pouco valorizado quando em atividade, com exceção de grandes críticos, já no seu ocaso, apareceu como ele mesmo em O amigo americano, 1979, de Win Wenders.

Sob o título Contos da loucura pouco ordinária, o ensaísta Claude Beylie, em seu livro As obras-primas do cinema, considera Paixões que alucinam um dos cem maiores filmes de todos os tempos. E diz: “Como um cineasta vigoroso consegue, em Shock corridor, incisar, com uma ironia feroz, algumas chagas da nossa civilização.” E mais: “Em Shock corridor, Fuller pretende denunciar os três cânceres que corrompem o mundo atual: o racismo, a intolerância e a ciência cega. Ele não recua diante de nenhum excesso, não se preocupa com nenhuma verossimilhança (as terapêuticas médicas praticadas no filmes são mais que fantasiosas) para embasar a sua demonstração. É verdade que este ex-correspondente de guerra sempre fez cinema como lança-chamas: cada sequência é como que uma praça-forte a ser atacada, e um terreno a ser neutralizado.