1.) CÉSAR DEVE MORRER (Cesare deve morire), de Vittorio e Paolo Taviani, com Cosimo Rega, Salvatore Striamo, Antonio Frasca. Urso de Ouro de melhor filme no Festival de Berlim de 2012. O filme tem início em cores com a encenação da peça Júlio César, de William Shakespeare, mas há um recuo no tempo, em preto e branco, e se descobre que o elenco é formado pelos prisioneiros de Rebibbia e se tem, entao, o processo de montagem da obra teatral. Os fratelli Taviani são realizadores de imensa força cinematográfica, investigadores poéticos da alma italiana e de suas idiossincrasias, além de cineastas de alto teor político. Docudrama de alta tensão. Os autores de Aconteceu na Primavera e Pai Patrão, entre outros monumentos, revelam, aqui, a sua atualidade.

2.) VOCÊS AINDA NÃO VIRAM NADA (Vous n’avez encore rien vu), de Alain Resnais. Também aqui, neste último filme do autor de O ano passado em Marienbad, uma obra de um realizador mais velho ainda que os Taviani, que ultrapassou a década de 90, mas que continua em franca atividade e em franca inovação. O jogo e a representação do jogo. Será que os melhores filmes do cinema contemporâneo estão sendo realizados por cineastas do pretérito? Pelo menos, os três melhores do ano em curso são de autoria de quatro, por assim dizer, anciães. Morre um famoso dramaturgo e os atores, que atuaram em diferentes versões de sua peça teatral Eurídice, são comunicados que o autor, em testamento, pede que todos avaliem uma nova versão de Eurídice encenada por uma companhia de teatro. Sérgio Alpendre em sua Revista Interlúdio foi quem matou a charada resnaisiana: " O jogo é esse. Sabemos que a representação não acontece senão em suas mentes, pois vemos os atores, por vezes, assistindo à peça filmada com atenção. Suas projeções é que representam novamente a peça, montam cenários, controlam a luz e, por intervenção de Resnais, têm a tela dividida em dois (e até quatro, num momento).  Esse efeito não é gratuito. É parte da estratégia do filme lidar com a inegável herança teatral do cinema, e como tal, pensar em como o avanço da técnica não conseguiu anular ou enfraquecer o princípio básico que rege o cinema: a encenação. Temos assim diversas encenações diferentes. A encenação de Antoine, que na verdade finge sua morte; a encenação filmada que os atores veem; as encenações que esses atores projetam e a encenação de Resnais, cuja função primordial é promover a fusão de todas as encenações existentes."

3.) O SOM AO REDOR, de Kleber Mendonça Filho. O mais importante filme brasileiro dos últimos tempos e também um dos melhores entre os estrangeiros. Em um bairro classe média do Recife, pequenos incidentes aparentemente sem importância alteram a monocórdica vida de seus moradores. O som de latidos de cachorros, de serra elétrica, do motor do elevador, de bolas jogadas no playground, estão sempre ao redor. A estrutura narrativa proposta pelo autor se apoia numa lenta cadência de acontecimentos banais, mas que parecem prenunciadores de algo que está por vir. O seu tempo cinematográfico é um tempo de espera e de observação de comportamentos e de certas idiossincrasias de seus personagens ( a mulher que se masturba na máquina de lavar – alusão a Eletrodoméstica – e expele a fumaça do cigarro para o tubo do aspirador de pó). Em outro momento, quando um vulto aparece rápido no corredor de um apartamento, há uma ligeira referência a seu primeiro curta, A menina do algodão. O desenvolvimento rítmico segue um diapasão de anti-clímax, embora este se dê sem ruídos nos minutos finais – exceção se faça às bombas que explodem nos últimos planos, quando se esclarece uma trama que parecia morta de momentos fortes. As fotografias de um pretérito do apogeu da cana de açucar, em preto e branco, expostas no início, se relacionam com o discurso que vem a seguir no sentido de que o passado ainda se encontra arraigado no presente. Filmado em 35mm, em CinemaScope, O som ao redor revela a maestria de um realizador que, no seu segundo longa (o primeiro: o documentário O crítico) mostra saber articular, com particular eficiência, os elementos determinantes da linguagem cinematográfica.

4.) O ESTRANHO CASO DE ANGÉLICA, de Manoel de Oliveira, com Pilar López de AyalaRicardo TrepaFilipe Vargas. Centenário diretor português, ainda e capaz, nestes sodômicos 2013, de nos surpreender e encantar com a sua peculiar maneira de filmar, de dizer as coisas, porque realizador dotado daquilo que François Truffaut considerava essencial ao cineasta: uma visão de mundo e uma visão de cinema. No filme em questão, que é sem dúvida um dos melhores do ano que passou, Oliveira (já perto dela, pois ninguém vai ficar para semente) fala da morte e do impacto que ela produz nas pessoas. A ação se localiza na Portugal salazarista dos anos 50, quando um fotógrafo, indo à região de Douro para documentar antigos métodos de trabalhos em vinhas (a temática social não se encontra ausente da obra), é contratado para tirar uma foto de uma mulher morta, que, de repente, lhe sorri. A moça morre como ser humano, mas renasce, na mente do fotógrafo, como imagem.

5.) RUSH – NO LIMITE DA EMOÇÃO (Rush), de Ron Howard, com Daniel Brühl (aquele ator alemão que se destacou em Adeus Lênin, aqui no papel de Niki Lauda), Chris Hemsworth (James Hunt), Olivia Wilde, Natalie Dormer. Artesão competente da carpintaria narrativa do cinema americano, Ron Howard (o ator mirim que fez o papel do filho de Glenn Ford em Papai precisa casar, de Minnelli) oscila entre altos e baixos, mas mesmo nos momentos fracos de sua filmografia já extensa  não deixa  a peteca da emoção cair. Cineasta visto com certa esguelha pela crítica mais alternativa, é um diretor maduro (Frost/Nixon), que, aqui, em Rush, se supera, dando ao espectador entretenimento, emoção, um retrato de uma época e um olhar sobre a rivalidade entre dois homens. E o resultado é um espetáculo que envolve o público. Rush reconta a história da rivalidade do piloto britânico James Hunt. Conquistador inveterado, Hunt se casa com Suzy Miller (Olivia Wilde), mas o matrimônio se abalou quando ela se apaixonou por Richard Burton (que, para piorar a situação, era amigo do piloto).

6.) KILLER JOE – MATADOR DE ALUGUEL (Killer Joe), de William Friedkin. Um realizador, Friedkin, que usa a mise-en-scène como um fio de eletricidade para fazer emergir, dela, o impacto cinematográfico (O exorcista, Operação França, O comboio do medo, outros). Cineasta de timing, de ritmo, que tem um sentido de espetáculo bem singular capaz de surpreender o espectador com um determinado travelling não previsto ou um corte de impacto. Diretor a ser revisitado em cinematecas, porque nunca bem visto em sua verdadeira potencialidade expressiva. Dublê de detetive e assassino por encomenda (Matthew McConaughey) encontra com jovem de 22 anos, cuja própria mãe roubara-lhe as drogas, que valem em torno de milhares de dólares. Se não entregar o dinheiro, o rapaz será eliminado. A sua proposta é que o matador Killer Joe dê sumiçõ, matando-a, a sua mãe que tem polpudo seguro de vida que daria para pagar a seus credores. Inflexível, porque só executa quando pago adiantado, o assassino por encomenda abre exceção para o rapaz na condição de que sua irmã mais nova sirva de garantia sexual até o dia do pagamento. O que pode parecer um filme convencional, assim exposto de maneira sintética, torna-se uma explosão de criatividade, considerando que sua produção de sentidos vem não da fábula, do argumento, mas da mise-en-scène de Friedklin, notável realizador.

7.) OS SUSPEITOS (Prisoners), de Dennis Villeneuve, com Hugh Jackman, Jake Gylllenhaal, Viola Davis, Maria Bello, Terrence Howard, Melissa Leo, Paul Dano. Thriller surpreendente que assinala a estreia do diretor canadense Villeneuve (Incêndios) em Hollywood. O espetáculo propóe uma investigação e, ao mesmo tempo, uma reflexão moral. Pai de família, desesperado com os desaparecimentos de sua filha e de uma amiga dela, desconfia que o policial encarregado da investigação mão mais se interessa em procurar o culpado. Diante disso, resolve, ele mesmo, fazer justiça pelas próprias mãos, acha o suposto culpado e o sequestra. O que poderia ter resultado num simples exercício no gênero, transcende-o para se transformar num exercicio de mise-en-scène com indagações reflexivas. Obra de um realizador que sabe pensar o cinema como estrutura audiovisual.

8.) TABU, de Miguel Gomes, com Laura Soveral, Ana Moreira, Ivo Mükker, Isabel Cardoso. Obra-prima do cinema contemporâneo. Homenagem cinéfilica ao clássico Tabu (1931), de Murnau e Flaherty. Uma mulher idosa, num prédio de Lisboa, em estado terminal, assistida pela doméstica africana e pela vizinha, refere-se a um homem misterioso de seu passasdo africano. Ela se chama Aurora (título de outro filme de Murnau, 1927). Há um flash-back e o filme, voltando ao pretérito, conta a sua vida na África. Melodrama que se desenrola como um malfadado conto de fadas. Obra desconcertante em todos os sentidos e um halo de esperança para o desvalido cinema que se faz na atualidade. Gomes já é conhecido dos brasileiros pelo belo Aquele querido mês de agosto.

9.) A CAÇA (Jagten, 2012), de Thomas Vinterberg, com Mads MikkelsenThomas Bo LarsenAnnika Wedderkopp. Virulento realizador dinamarquês (Festa de família), que assinou com Lars von Trier e outros, o manifesto do Dogma (que defendia a volta do cinema à sua forma de produção mais básica), o cinema de Vinterberg está sempre focado na exposição das fraturas expostas da sociedade.A vítima aqui dessa caçada é um pobre homem que, após divórcio complicado no qual perdeu a guarda do filho, emprega-se numa creche para tentar se reabilitar, mas uma menina o acusa de bullyng. Resultado: mesmo que não provada a sua culpa, ele é perseguido por quase todos os habitantes da cidade como um animal acossado. Mads Mikkelsen, o homem caçado, é conhecido pelo seu trabalho como o vilão cujos olhos sangram de Cassino Royal

10.) AMOR (Amour), de Michael Heneke. Realizador que ausculta a sua cultura e os germes do nascimento do autoritarismo (A fita branca), empenhado nas fraturas expostas da sociedade pela emergência da violência (Violência gratuita), e pela ânsia sexual sem limites (A professora de piano), entre outros, Heneke, em Amour, oferece, pela cena da ópera inicial, um lugar cativo para o espectador esperar, na duração de sua projeção, a morte pelo amor e, com isso, observar o processo de desintregação de um casal de músicos (ele, Jean-Louis Trintgnant, soberbo, ela, Emmanuella Riva, também soberba). A mulher, por causa de um derrame, fica paralítica e o marido vê-se na circunstância de cuidar dela. Até o momento derradeiro chocante, que dá um ponto final ao processo. Com exceção da cena de ópera, Amor foi todo rodado no interior de um amplo apartamento, que é a reconstituição de um no qual o autor viveu por longos anos. O sentido de duração dos planos de Heneke obedece à duração de uma vida lenta, destituída de alento, e, com seus movimentos de câmera no interior da residência, Heneke põe, por assim dizer, o espectador como cúmplice do estado de agonia dos personagens. Trintgnant, que tentara o suicídio antes do filme, aceitou trabalhar em no filme e sua expressão é reveladora de um amargor condizente com o suplício do personagem. Trintgnant que, na sua juventude, conseguiu consquistar Brigitte Bardot durante as filmagens de …E Deus criou a mulher (…Et Dieu créa la femmme). E nenhum cinéfilo, que assim se considere, pode esquecer de Emmanuella Riva em Hiroshima, mon amour, de Alain Resnais. Também presente, como a filha do casal, Isabelle Ruppert.