Por Luciano Borges
Dorival Junior anda preocupado com o futebol brasileiro. O técnico do Internacional acha que, nas duas últimas décadas, a valorização das individualidades está matando o modo original do Brasil jogar. “Já estamos pagando o preço por isso. “Estamos esquecendo o coletivo e valorizando sobremaneira o individualismo. Esta desvalorização do jogo de conjunto vai nos custar caro”, disse ao Blog do Boleiro.
A conversa começou quando Dorival Junior foi perguntado se ele estava preocupado com o Juan Aurich, time peruano que o Internacional enfrenta nesta quinta-feira, em Porto Alegre. O treinador tinha dito pouco antes, no programa Primeiro Tempo do Bandsports, que ia cobrar “espírito de decisão” dos atletas colorados nesta estreia do Grupo 1 da Copa Libertadores da América.
“Não dá para iniciar esta fase achando que as coisas estão resolvidas”, afirmou. Para ele, o inimigo do Peru é uma equipe em formação, que cultua o toque de bola. “Todos os times que chegam na Libertadores não estão por acaso nem receberam convite ou caíram de paraquedas. O futebol peruano é forte, como são o chileno e o boliviano”, disse.
Foi a partir daí que Dorival Junior resolveu falar porque acha que há tanto equilíbrio entre clubes brasileiros e os adversários de países sem tanta expressão mundial.
Blog do Boleiro – Este equilíbrio é real? Existe mesmo?
Dorival Junior - Estamos perdendo nossa melhor qualidade, nosso valor mais tradicional que é o futebol coletivo, bem jogado. Estamos individualizando ao extremo. Esquecemos do jogo coletivo, que o Brasil sempre desenvolveu. E porque perdemos esta concepção, estamos perdendo força.
Até onde vai o alcance desta mudança?
Isso acaba refletindo até na seleção brasileira, que vem perdendo para adversários que tradicionalmente não davam tanto trabalho. Vamos pagar um preço alto por isso. Nós tivemos equipes, como a seleção da Copa de 1982 que jogou bonito e tinha individualidades. Em 94, fomos campeões, muita gente criticou o time, mas ele era marcado pelo jogo coletivo. Hoje perdemos estas características. Fica tudo muito baseado em um ou dois talentos individuais.
O Santos, que você dirigiu e foi campeão em 2010 não era baseado no talento de Neymar e do Paulo Henrique Ganso?
Não. Era um time eficiente, agressivo, que jogava com um toque. Mas era um jogo coletivo. É só lembrar que, no começo de 2011, o Santos vendeu Wesley e André, além de perder o Robinho que voltou ao Milan. Era uma equipe harmônica no coletivo. Mas não era focada apenas no Neymar.
O Santos de hoje joga assim?
Não queria ficar falando de equipes porque não é isso que defendo. Falo em um conceito mais geral. Posso dizer que o Muricy Ramalho vem desenvolvendo um belo trabalho no Santos. Foi campeão da Libertadores e, dentro da filosofia dele, armou uma equipe baseado no coletivo.
Hoje no Internacional, você procura seguir esta idéia do jogo coletivo?
Sim. Primeiro monto minhas equipes pensando no jogo coletivo. Depois as individualidades terão espaço para fazer diferença. O Internacional é um time de toque de bola, equilibrado.
Para o jogo contra o Juan Aurich, você conta com todo mundo em forma?
Quase todo o mundo. O Ney passou por uma artroscopia e vai ficar de 15 a 20 dias parado. Mas conto com todo o elenco para este jogo. Vai ser importante encarar o Juan Aurich do mesmo modo com que enfrentamos o Once Caldas.
O Internacional começou a temporada com esta decisão.
Verdade. Com dez, 12 dias de trabalho, já tivemos que encarar este mata-mata. E não foi só isso. Em uma semana, jogamos no domingo, quarta, quinta e sábado. É um absurdo. Aliás é um absurdo o que está se fazendo com os treinadores. Dentro destas condições, o imediatismo dos dirigentes está sendo excessivo.
O Internacional foi buscar homens de meio de campo de países da América do Sul, como o Guiñazu, D’Alessandro e Dátolo. Acabaram os meias brasileiros?
Esta é uma das piores conseqüências deste futebol baseado no talento individual. Se você buscar os jogadores eleitos como os melhores do Campeonato Brasileiro nos últimos cinco anos, vai encontrar poucos brasileiros.
Qual o motivo?
Entre outros, a valorização do 3-5-2. Perdemos armadores e bons laterais com esta opção. O calendário e a estrutura do futebol brasileiro também ajudam. Um técnico monta uma equipe para jogar coletivamente, mas a cada três meses, acaba perdendo jogadores. As equipes se desfazem rapidamente. Estas torças impedem a criação de uma espinha dorsal. Acho que estamos caindo num poço, mas ainda não sei o quão fundo ele é.
Tem jeito de melhorar?
Tem. É preciso mudar este conceito. Veja, estamos pagando por um processo de 15, 20 anos. Demora, mas precisamos mudar agora.
No ano passado você ficou fora da Libertadores. Agora vai disputar com o Internacional.
Acho que na vida, nada na vida acontece por acaso. Gostaria de ter permanecido no Santos. Ainda gosto muito do clube, sou admirador dos jogadores. Mas espero fazer o melhor possível aqui no Internacional. Estou visualizando coisa boa aí na frente.