Nos anos sessenta uma onda de desconforto social invadiu toda a América Latina. Séculos de sujeição e violência institucionalizada exigiam novas posturas.
 
Surgiu a Teologia da Libertação como instrumento de ação da Igreja Católica. Jovens e adultos bem intencionados aplicaram-se em demolir os alicerces do capitalismo tardio e dependente.
 
A par deste grupo de militantes oriundos do espaço religioso, as históricas agremiações de esquerda procuraram incentivar reformas, então conhecidas como de base.
 
Foram anos agitados. Quando os conservadores se aperceberam da evolução acelerada das idéias reformadoras, aglutinaram-se em torno de órgãos de comunicação e procuraram envolver as Forças Armadas.
 
O incentivo externo – particularmente dos Estados Unidos – permitiu o surgimento de uma contracorrente. Esta levou ao fechamento do Congresso Nacional e a suspensão das liberdades individuais.
 
Implantou-se uma ditadura no País, mitigada por alguns arranjos posteriores a abril de 1964, data do golpe de força. O Congresso voltou a atuar precariamente.
 
Dois partidos políticos foram autorizados a funcionar (Arena e MDB). Os meios de comunicação divulgavam parcialmente os acontecimentos da administração pública e da vida social.
 
Todo este cenário de meias cores tinha como instrumento de coação e imposição da vontade do Sistema, nome que se conferia ao coletivo de militares no poder, o Ato Institucional n. 5.
 
Este impedia qualquer manifestação livre do pensamento e a divulgação de novos pensamentos políticos. Uma geração foi obstacularizada. Não podia fazer política.
 
É claro que as sementes de insatisfação existentes antes da nova ordem geraram nova maneiras de ação política. Nasceu a violência como instrumento da atividade política.
 
Inúmeros grupos se formaram e agiram de acordo com seus objetivos específicos. Ocorreram seqüestros. Assaltos a bancos. Morte de agentes oficiais.
 
A reação do governo autoritário foi imediata. Impôs luta sem trégua aos adversários, em geral jovens idealistas que ingressaram na luta armada. Foram manietados fisicamente. Torturados. Por vezes, mortos.
 
Todo este cenário lúgubre transformou os jovens engajados no combate pela democracia em autênticos heróis. Passaram a ser respeitados, mesmo pelos adversários.
 
Mostraram coragem incomum, em momento dramático, onde a busca da liberdade exigia sacrifícios da própria integridade física. A História registra seus nomes com respeito. A sociedade os admirou.
 
É lamentável que este acervo de heroísmo vá se dilapidando todos os dias no noticiário contemporâneo. Aproveitamento do Estado de maneira nociva. O uso da máquina pública de forma indecorosa.
 
Os heróis de ontem se transformam em deliquentes de hoje. O desserviço à causa pública que antigos militantes estão produzindo é incomensurável.
 
Alguém já disse, de maneira cínica, que no Brasil não há heróis. Os militantes da luta armada, no presente, parecem desejar transformar em verdade a amarga ironia.
 
A Polícia Federal e o Poder Judiciário trouxeram a tona uma delinqüência medíocre. Verdadeiros pequenos burgueses em busca do botín conquistado graças à confiança do eleitorado.
 
O mal que estes aproveitadores da coisa pública causaram à nacionalidade – e a democracia – é incomensurável.Torturaram moralmente milhões de brasileiros.
 
Violaram a esperança e os mais nobres sentimentos de cada cidadão.