A falsa sensação de plenitude invadiu as pessoas. Todos se imaginam, tal como os super-heróis da televisão, imortais. Esquecem a finitude da vida. A inafastável presença da morte.

As pessoas são "seres-para-a-morte". Ninguém escapará deste destino biológico. Para muitos, o temor do inevitável é tanto, que, só de pensar, tremem em seu interior.
 
No passado, em razão da fragilidade da medicina e da presença de conflitos bélicos permanentes, a morte era lembrada e utilizada como instrumento de dominação.
 
Houve época – como no romantismo – em que a morte era saudada como a companheira desejada. Estava sempre presente nas endemias, então constantes, como a tuberculose.
 
Agora, os velhos desejam permanecer eternos jovens. Os jovens querem viver o presente em sua plenitude. Os adultos preocupam-se com a sobrevivência, sem quaisquer preocupações filosóficas.
 
Vive-se no interior de uma humanidade materializada. Não há preocupações com tudo aquilo que não é contingente. Este estado de alienação se rompe quando o medo atinge as consciências.
 
Este medo vai crescendo, em proporção geométrica, por todo o Brasil e de maneira muito especial em São Paulo. A morte ronda a cada cidadão, como se todos fossem objeto de uma roleta russa.
 
Este sentimento de medo – seguido de indignação – atingiu seu ápice, nesta última semana, na capital paulistana. Uma jovem de vinte e cinco anos, grávida de nove meses, foi brutalmente assassinada.
 
O agressor, autor do estúpido homicídio, um homem de vinte e dois anos, que, para roubar, atingiu com um tiro na cabeça a sua indefesa vítima. A violência contra a jovem fez surgir, no coletivo, a presença da morte.
 
Todos perceberam que estão sujeitos à perda da vida, a qualquer momento, na cidade onde vivem. Constataram que o Estado, concebido para oferecer segurança aos cidadãos, falha em uma das suas principais atribuições.
 
Rousseau, o pensador genebrino, aponta para uma verdade inegável: o pacto social tem por função a garantia da segurança pública. A vida não é apenas uma dádiva da natureza. É também uma condicionante do Estado.
 
Ora, se todos se sentem frágeis, porque o Estado não oferece segurança, há algo profundamente doentio na vida pública nacional. Os três entes federados devem se debruçar sobre o tema.
 
Ausência de segurança pública levará a uma entropia sem volta. A vida – tão cantada em prosa e verso – não vale nada nas cidades brasileiras. Apesar da ausência do culto à morte, esta venceu.
 
Tornou-se companheira inseparável da mais singela ação em nossas ruas. Já não se pode andar a pé. Trafegar em veiculo particular. Usar transporte coletivo.
 
Em qualquer lugar – inclusive no interior dos domicílios – a morte espreita e ingressa. É a bala perdida. É o tiro certeiro. A emboscada traiçoeira. Ninguém está livre de morrer pelas mãos de assassinos cruéis.
 
Do Estado espera-se que cumpra suas obrigações com a coletividade. Não iniba seus agentes da ação de preservar a vida dos cidadãos prestantes. Valorize suas polícias. Não desprestigie seus agentes.
 
A insegurança ocupou todos os espaços do pensamento de cada cidadão. A morte de uma jovem – que como último ato deu vida à filha – é símbolo amargo de uma sociedade sem rumos.
 
A próxima vítima já está marcada. Cairá a qualquer momento. As autoridades sequer condolências enviarão. A vida já não tem importância. A morte foi eleita senhora absoluta de nossas cidades.