A semana foi repleta de acontecimentos atípicos. Registraram-se cenas degradantes produzidas por torcida uniformizada brasileira em país estrangeiro. 
 
A Rodovia dos Imigrantes, proclamada orgulho da engenharia nacional, sofreu acidentes naturais previsíveis. Excessos pluviométricos ou ausência de manutenção qualificada?
 
Não haverá resposta. Tudo passará sem maiores investigações. É próprio das vésperas de um ano eleitoral. Em ambos os episódios vidas humanas foram perdidas. Já não se lastimam as mortes.
 
Em uma sociedade de imagens multifacetadas nada importa. Aguarda-se sempre a próxima cena. É o caleidoscópio da irresponsabilidade em pleno giro. Tudo roda loucamente.
 
Dentro deste cenário, um episódio acadêmico mereceu longa exposição pelos meios de comunicação. É raro a Academia ter espaço na mídia. Só o sensacional merece espaço.
 
Foi algo inusitado. Uma autora de dissertação de mestrado, imbuída de furor investigativo, obteve permissão para exumar e submeter a exames os restos mortais de três integrantes da Família Real pátria.
Foram retirados da cripta do Monumento do Ipiranga, local da proclamação da independência do Brasil, os corpos de Pedro I e das imperatrizes, D. Leopoldina e D. Amélia.
A motivação da mestranda e dos médicos do Hospital das Clínicas, que a auxiliaram, foi obter informações históricas sobre o organismo e causa da morte das três figuras históricas.
 Aceitável o argumento. Conhecer os motivos da doença que levou D.Pedro à morte, após a sua longa luta, na Revolução Liberal portuguesa, é elemento em princípio importante.
 
Concluíram, no caso do primeiro Imperador, que dois acidentes, verificados no Rio de Janeiro, levaram à atrofia de um de seus pulmões. Esta, por sua vez, agravou um quadro de tuberculose.
 
Atingiu-se outra conclusão. Agora quando da análise dos restos de D. Leopoldina. A infeliz imperatriz não teve o fêmur fraturado por seu marido, como indicavam alguns historiadores.
 
Dona Amélia, segunda Imperatriz, por sua vez, ao que consta, não apresentou, em seus restos mortais, nada de surpreendente, salvo encontrar-se seu corpo mumificado. Os trajes dos três membros da Família Real apresentam elementos dignos de apreciação.
Consta que membros da Família Real e o IPHAN autorizaram as exumações realizadas. Tudo bem, em termos. Estas personalidades pertencem à nacionalidade.   
 
Não pode um mero órgão burocrático – por mais qualificado que seja – conferir seu de acordo para atos tão importantes. Os familiares, por sua vez, não possuem legitimidade para dispor sobre corpos que pertencem à nacionalidade.
 
Em princípio, só o Congresso Nacional, por resolução própria, poderia permitir a exumação de figuras da História nacional. Se a moda pega, dentro em breve nenhuma personalidade permanecerá em paz.
 
Admitindo-se – por mera argumentação – que todo o procedimento foi regular, ainda assim, houve falha grave. As imagens dos restos mortais não podiam ter merecido exposição pública.
 
Realizados exames técnicos os resultados poderiam merecer publicidade, mas as fotografias distribuídas – ao grande público – atingem o espaço da intimidade e da imagem das personalidades.
 
No mínimo, faltou respeito humano. Não se pode oferecer à sociedade a intimidade mortuária de ninguém. O mais simples dos mortais, quando morre em uma via pública, tem logo seu corpo coberto por populares.
A sociedade aos poucos vai perdendo seus valores mais nobres e tradicionais. É lastimável. Estamos próximos da barbárie institucionalizada.