Há pouco mais de um século, negros ainda eram escravos no Brasil.

O país foi um dos últimos do continente a terminar com essa chaga, que perdurou por mais de trezentos anos.

Os conservadores de outrora urraram contra a ‘violência’ que era abolir a escravatura, especialmente por romper com “direitos adquiridos” dos ruralistas sobre a mão-de-obra barata.

Não é preciso ir longe para imaginar o que teriam dito os antepassados dos neoliberais e dos atuais “politicamente incorretos” sobre a abolição: cortesia com o chapéu alheio, quebra dos contratos, proibição de um comércio tradicional, fim da livre iniciativa, o Estado dirigindo a vida dos cidadãos…

Não é lá muito diverso, aliás, das acusações que se fazem contra a incorporação de direitos e mecanismos de proteção a mulheres, homossexuais, indígenas e os próprios negros.

A diferença é que hoje se pretende usar, como pretexto, justamente a igualdade que a eles foi negada no decorrer da história. Não deixa de ser uma forma um pouco mais elaborada de cinismo.

À igualdade meramente formal, soma-se o mito da democracia racial.

Já faz tempo que nos orgulhamos de ser um país sem racismo, sem ódio e sem leis que assumam diferenças sobre a cor da pele.

Mas ao mesmo tempo em que é difícil encontrar negros no poder, nas carreiras jurídicas, nas profissões liberais, na universidade, é impossível fugir da herança da pele entre as domésticas, os favelados, os presos, as vítimas de homicídio.

A invisibilidade do muro talvez seja o maior obstáculo à sua superação.

É difícil, custoso e sofrido fazer a autocrítica e reconhecer que, sim, ainda continuamos racistas. E que precisamos de ações afirmativas para concretizar a igualdade.

Passamos esses cento e vinte anos ocupados demais criminalizando a vadiagem e a mendicância, mantendo a “boa aparência” como requisito de contratação, multiplicando entradas de serviço e banheiros de empregada em nossos edifícios.

A pobreza, legado primaz da escravidão, se encarregou de tornar as coisas mais fáceis e manter as separações sem muros tão formais.

É hora de reencontrar o Brasil.

Sem fazê-lo, vamos continuar navegando em um mar de hipocrisias –típicas, aliás, de um país que fechou os olhos às torturas do passado da mesma forma como fecha às do presente, orgulhoso de tê-las expungido da letra da lei e só dela.

Cotas não são instrumentos permanentes ou ideais –são mecanismos de reparação e estímulo. São desiguais para igualar, como é a essência do princípio que muitos defendem sem conhecer.

São o passaporte mínimo para o encontro do país com a sua consciência negra.

Sem ela -da mesma forma como sem a proteção a seus filhos primeiros, os índios- podemos continuar por muitos anos cantando a poesia cáustica de Aldir Blanc: “o Brasil não conhece o Brasil, o Brasil está matando o Brasil”.

 

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