Uma emissora de televisão questiona a patroa como vai fazer para pagar as horas extras de seus cinco empregados domésticos.

A revista semanal expõe na capa a foto de um homem de gravata lavando a louça, chamando a atenção para o futuro drástico que espera seu leitor.

Quando mais tarde essa conquista civilizatória, que é tratar doméstico como um empregado normal, se tornar um fato histórico, será que a imprensa se lembrará do papel que teve em assustar a classe média?

Hoje é difícil encontrar quem defenda abertamente a escravatura nos moldes coloniais, mas na época até mesmo o direito adquirido foi usado para advogar contra a abolição. Não é difícil supor o terrorismo que a imprensa deve ter feito com a futura ‘penúria’ dos senhores de engenho.

Não existe avanço civilizatório sem rompimento do status quo.

Se a nova classe média viaja mais, o aeroporto parece uma rodoviária e quem usufruía da exclusividade agora disputa espaço.

Se mais pessoas podem comprar carro, torna-se evidente a obstrução de nossas artérias viárias –mas por que imaginar que os que chegaram antes às ruas têm mais direitos a estarem nelas?

A falta de infraestrutura é o preço de um sucesso, não a celebração do fiasco.

A conquista da universidade pelos filhos de empregadas e pedreiros muda o perfil de lugares antes tidos como extensão dos colégios privados -por quanto tempo mais os equipamentos públicos do país se manteriam exclusivos a tão poucos?

A ascensão social causa ruídos, incomoda quem se sentia confortável –mas por que apenas alguns deveriam se manter na sua Bélgica, enquanto tantos outros se empoleiram em nossas várias Índias?

A PEC do Trabalho Doméstico é tão simples que chega a ser difícil entender como demorou tanto para se tornar realidade.

Por que motivo empregados que estão mais disponíveis que os outros, que sacrificam seus descansos pelos descansos do patrão, que abrem mão do convívio de suas famílias para abrigar a deles, devem ter menos direitos que todos os demais?

Só uma persistente herança colonial pode explicar tamanho atraso.

Por que reconhecer o álibi do carinho e dos favores, do abrigo e da amizade aos empregados justamente para lhes negar direitos que normalmente exigimos dos nossos patrões?

O relacionamento cordial devia facilitar este avanço, não servir de pretexto para negá-lo.

Nos últimos dez anos, temos assistido ao crescimento da massa salarial, ao mesmo tempo que o da formalização dos empregos, o que a tecnocracia sempre nos disse ser impossível. Como nos dizia que o salário era inflacionário. Ou que era preciso esperar o bolo crescer para depois dividir.

Hoje aprendemos que quanto mais dividimos o bolo, maior a chance de que ele cresça, porque existe mais mercado para consumir o que nossos comerciantes querem vender.

Os brasileiros vão ao exterior e andam orgulhosos de transporte coletivo; viajam para aprender línguas e fazem serviços manuais para se sustentar; quando lá residem, abrem mão de contratar domésticas porque em países desenvolvidos a mão-de-obra é muito cara.

Mas quando voltam, querem todo o cuidado e carinho das empregadas para arrumar suas malas, lavar suas roupas, preparar suas comidas e ficar agradecidas o suficiente para não exigir seus direitos.

Nossa elite não quer um país de primeiro mundo.

Quer continuar comandando uma nação atrasada, cujos empregados lhe agradeçam eternamente pelo direito de servir.

São aqueles que lutam por um Brasil que seja, sobretudo, o país do passado.

 

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