As férias escolares da meninada podem ser uma boa oportunidade para que pensemos um pouco mais sobre as possibilidades que advêm de um sólido conhecimento científico e tecnológico, construído a partir do envolvimento dos jovens na criação e nas invenções aparatos técnicos e tecnológicos.

Penso que essa formação tem que se dar na escola, mas também fora dela, em outros espaços que, dialogando intensamente com ela, constituam um ambiente mais amplo, no que denomino de um ecossistema pedagógico público para a educação. Para isso se configurar, necessário se faz que se espalhem pelo pais afora espaços formativos prenhes de criatividade, inspirado na política dos Pontos de Cultura, onde a criação nasce de baixo, com apoio financeiro e articulador do poder público. Espaços para a invenção e criação coletiva, envolvendo jovens e adultos, transformando radicalmente a maneira de se ensinar e aprender.

HackerLab no festival de Cultura Digital, Rio, dezembro de 2011.

A ideia é a de se ter em todos os bairros de todas as cidades, integrando o sistema público de educação, ciência e tecnologia, laboratórios hackers (hackerslab ou hackerspaces) nos moldes do que já vem existindo em diversos países, inclusive no Brasil. Em São Paulo o Garoa Hacker Club pode ser um exemplo de iniciativa bem sucedida nesta linha. A turma tem feito um importante trabalho de pesquisa e desenvolvimento, com a criação de diversos projetos, entre os quais as impressoras 3D, que podem revolucionar, num futuro bem próximo, a produção industrial. Nos Estados Unidos, proliferam experiências e não só para a garotada, mas também para jovens profissionais que, articulados em torno de projetos coletivos e colaborativos, ocupam garagens e prédios antigos, instalando ali laboratórios hackers para desenvolver ciência e tecnologia. Trago aqui apenas dois exemplos no campo da biotecnologia: o DIYbio e o Genspace, que buscam integrar em rede biólogos, amadores e profissionais, com o objetivo de promover a ciência cidadã. Tudo isso está fortemente calcado no que vêm sendo conhecido como a cultura hacker, responsável pela criação, nada mais, nada menos, do que a própria rede internet.

Importante pensar, ainda, na criação e ampliação de museus de ciência e tecnologia com uma concepção que vá além do observar fenômenos e equipamentos. Esses espaços precisam ser também lugares para o fazer ciência, como o é o projeto UNICA (Universo da Cirança do do Adolescente), na Cidade do Saber em Camaçari. Um Museu tecnológico interativo de ciência que encanta crianças, jovens e adultos. Como era, mesmo de forma precária, o Museu de Ciência e Tecnologia, implantado no governo de Roberto Santos (1975/1979), no Parque de Pituaçu (Boca do Rio), criado à mesma época.

Aliás, merece destaque o ocorrido na primeira semana do ultimo mês do ano, quando a UNEB (Universidade do Estado da Bahia) concedeu a Roberto Santos o título de doutor honoris causa. Eu lá estava para prestigiar o colega e ex-reitor da UFBA, professor que tanto insiste no que ele denomina de “ensino prático das ciências”. Os discursos de todas as autoridades da UNEB, desde o Magnífico Reitor até a último das falas que celebravam o homenageado, exaltavam as qualidades e feitos de Roberto Santos, incluindo a criação do Museu de Ciência e Tecnologia. Todavia, para meu espanto, omitiam solenemente o fato de que aquele museu, palco de minhas aulas e passeios com alunos e filhos, estar hoje sob os cuidados da própria UNEB, mas totalmente abandonado. Esse abandono é resultado de histórica picuinha política dos primeiros governos pós 79, sendo vítima de descaso inclusive do atual governo, que o transferiu solenemente para a própria UNEB. Esta lá instalou a Pró-Reitora de Extensão e, dessa forma, conclui o seu desmanche! Hoje, restam ali a locomotiva na frente e a pobre rotativa ao fundo, marcando uma época passada onde o deslocamento se dava pelas linhas férreas e as informações chegavam unicamente impressas pelos linotipos.

A Bahia carece de muito mais nesta área. É incompreensível não termos um planetário, que possibilitaria crianças, jovens e adultos se deliciarem com o estudo dos céus; um aquário municipal, não só em Salvador, mas em outras regiões de um tão rico litoral como o baiano. Penso também no valor de um Museu do Cacau Cabruca no sul da Bahia (conheci Barro Preto, pequena cidade ao lado de Itabuna onde o esse tipo de cultivo sem destruição da mata nativa ainda é forte, e ela ainda lá está, forte e exuberante, que poderia, ao mesmo tempo que ali se instalasse um museu, receber fortes incentivos para o chamado turismo rural, tão presente e valorizado em diversos países do mundo).

Na região do semiárido, interessante se pensar em um Museu do Feijão e, para além dele, em tantas outras culturas que seriam, consequentemente, fortalecidas.

Certamente, Roberto Santos – e todos nós! – sairia mais cheio de júbilo das homenagens que lhe foram prestadas se as autoridades presentes houvessem anunciado a decisão política de imediata recuperação do Museu de Ciência e Tecnologia da Boca do Rio.

Ainda há tempo para tal!