.

O terreno das emoções é ruim de pesquisa. Foi mais fácil construir a psicanálise do que levar a emoção ao laboratório. E, como sabemos, a construção da psicanálise não torna as coisas mais fáceis para os espíritos quantitativos. A idéia de inconsciente mostra que o quadro da existência humana é deveras complexo. Mesmo assim, ninguém quer desistir de entender e quiçá controlar as emoções – as pílulas e os mercados se multiplicam.

A mesma lentidão vale para o terreno de pesquisa que pretende unir “música e emoção”. A pesquisa da cognição musical avançou bastante em áreas como a percepção e mesmo performance. Por exemplo, contamos hoje com modelos bem mais sofisticados para o entendimento dos processos rítmicos. Mas a pesquisa cognitiva quase nunca quer se associar à empreitada da emoção.

Há também, um alerta histórico disparado contra o poder alienante da emoção em música. A emoção musical como grande mercadoria dos nossos tempos, como mola propulsora da industria cultural, e portanto, como território do mal, capitalista, behaviorista, fascista, entre outros. O que diria Adorno?

Mas hoje há maneiras de “enxergar” o cérebro fazendo seu nobre trabalho. Há inclusive uma teoria, segundo a qual a música contaria com redes neuronais próprias, não compartilhadas por outras atividades, tais como a linguagem.

Se tal for o caso, ganha força a hipótese de uma realidade biológica (herdada) para a música – independentemente da inserção social e cultural. Cresce o interesse pelo estudo de casos de amusia – dificuldades congênitas ou adquiridas com relação à música – pois eles permitem avançar no entendimento dessa base neurológica de suporte à atividade musical.

Já é possível reunir especialistas de alto nível em torno do binômio “música e emoção”, buscando cercá-lo com investidas epistemológicas bastante distintas. Por um lado, é sinal desses tempos multidisciplinares. Por outro, uma confissão antecipada da dificuldade de pescar um peixe tão escorregadio.

Em “Music e Emotion” editado por John Sloboda e Patrick Juslin, esse é o caminho (Oxford University Press 2006). Inicialmente a filosofia é convocada para avaliar a antiga questão da expressividade musical. Depois a própria musicologia, que faz um balanço da longa história do interesse pelo binômio em questão, remontando ao Barroco e à teoria dos Afetos.

A paleta disciplinar se expande em direção à psicologia, biologia, antropologia, sociologia, musicoterapia, criação e performance, e, finalmente, o ponto de vista do ouvinte, teoria da recepção.

De todo esse percurso, destaco a curiosidade do círculo de adjetivos de Hevner. Ele estabelece oito áreas de emotividade: solene, triste, sonhador, sereno, gracioso, alegre, excitante, vigoroso. Cada uma dessas áreas é desdobrada em emoções/adjetivos correlatos. Por exemplo, triste, vai desdobrado em: depressivo, escuro, frustrado, sombrio, pesado, melancólico, pesaroro, patético e trágico. No total, acabam sendo quase cem categorias qualitativas ou emocionais.

Observa adiante que o staccato em música geralmente evoca as áreas 6 e 7 (alegre, excitante e todos os correlatos), enquanto que o legato prefere as qualidades de solene, triste ou sonhador. É claro que diante de tais generalizações, imagino imediatamente uma música triste toda em staccato, mas isso é pirraça de compositor.

Tudo indica que a temporada de pesquisa nessa direção está aberta e em franco crescimento. Vale ressaltar uma idéia que o próprio Sloboda enuncia: a relação entre música e emoção é também o resultado do agenciamento do próprio ouvinte, que leva essa expectativa de impacto emocional para o encontro com a música.

Afinal de contas, música não tem emoção alguma, somos nós que assim sentimos, quando em sua presença. Ou será que o samba e a bossa estão no sangue e nos gens?

Paulo Costa Lima é compositor. Pesquisador pelo CNPq. Professor de composição da Universidade Federal da Bahia.
www.myspace.com/paulocostalima – http://www.paulolima.ufba.br/

Fale com Paulo Costa Lima: paulocostalima@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusivaresponsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetroseditoriais de Terra Magazine.