N as últimas semanas a violência explodiu em São Paulo, sublinhando mais uma vez a irracionalidade de sua presença, e, infelizmente, sua centralidade em nossos dias.

Qual a atenção que a temática recebe na rede de universidades brasileiras? Diria que muito pouca, quase nenhuma — alguns podem inclusive duvidar que isso seja assunto para universidades, algo que já é sintoma… E não estou falando que não existem programas e projetos pontuais voltados para essa temática.

Estou falando de forma abrangente, que as temáticas mais concretas da nossa vida em sociedade — a violência, o caos na saúde, a urbanização das favelas e bairros de baixa renda (onde vive a maioria), a escola pública, a produtividade e a inovação (nas empresas e nas comunidades), o acesso ou bloqueio aos bens culturais — recebem muito menos atenção do que o caminho dos conteúdos sacralizados pela tradição, e o fetiche dos diplomas.

Não seria de se esperar que esses fossem os grandes temas, ou tipos de temas em discussão em todas as universidades brasileiras? Entrar na universidade deveria ser sinônimo de se aproximar e poder contribuir com cada uma dessas direções.

Agora que a política de ingresso ganhou outra formatação no Brasil com as cotas, é preciso reconhecer que a diversificação do contingente é apenas um primeiro passo. Muita coisa precisaria mudar lá dentro.

Um sinal evidente de que esse horizonte deixa a desejar é a quase inexistência de indicadores para uma avaliação da Universidade nessa direção. Os rankings, por exemplo, nada apuram  nesse sentido.

Portanto, precisamos de mudanças estruturais — que elas iniciem o mais brevemente possível pois o caminho é longo — em busca da 'universidade necessária'. A expressão, cunhada por Darcy Ribeiro, não deixa dúvida quanto à desnecessidade de diversos projetos de universidade.

O financiamento das universidades deveria ser ampliado com base no esforço na direção dessa concretude — e sem perder de vista a excelência internacional, só que re-construída a partir dos nossos desafios. Portanto, não se trata de forma alguma de uma hipertrofia da prática — e sim da convocação dos melhores esforços teóricos para dar conta de nossa realidade paradoxal.

Ser estudante da área de saúde deveria ser equivalente a entender a fundo os problemas e caminhos da saúde como esforço coletivo — e não apenas o caminho da saúde do indivíduo — os meandros dos nossos sistemas de saúde. Idealmente as universidades abrigariam verdadeiros observatórios da saúde, permitindo uma visão crítica do horizonte de eventos.

Da mesma forma, os estudantes de engenharia e arquitetura teriam encontro marcado com as questões das grandes áreas urbanas brasileiras. E todos discutiriam a escola pública como peça fundamental para a construção de desenvolvimento e sustentabilidade. A escola pública deveria ser preocupação de todos os perfis profissionais.

Existe desafio maior para a formação dos gestores (na grande área da administração) do que o espírito de empreendedorismo das comunidades, a geração de emprego, as soluções inovadoras envolvendo transferências de tecnologia, os novos paradigmas de produtividade?

Os exemplos se multiplicam. O Brasil conseguiu acionar importantes janelas de oportunidade, que agora dependem em grande medida da questão educacional. Como Reunir numa universidade (ooops!) esforços produtivos nessa direção? Não adianta colocar todas as esperanças no ensino técnico – a escala do problema deveria envolver toda a rede que produz conhecimento.

Isso exigiria uma espécie de redesenho da instituição a partir de Programas voltados para esses tipos de temáticas, de formato inovador, permitindo que a formação ocorresse em paralelo ao envolvimento com a realidade (e o sonho de sua transformação).

Permitindo, portanto, que a formação dos mais diversos perfis profissionais fosse nutrida pelo viés da pesquisa e troca de saberes (levando a interdisciplinaridade a sério, o que não impede que tenha focos e resultados concretos, e também valorizando os espaços de potencialização mútua entre universidades e comunidades), ao invés da tradicional ênfase em currículos sacramentados por corporações profissionais estanques. Currículos de faz de conta, de cuspe e giz, de papel.

É uma tarefa de grandes proporções — e que não deve ser dispensada apenas por que nunca avançamos muito nessa direção essencial. Apenas porque tivemos de nos apoiar tanto nos modelos internacionais que pouco nos permitimos criar em termos de processos autóctones (o desperdício da experiência indígena ou afro-brasileira são os exemplos gritantes). O que seria mesmo uma universidade indígena?

Há de se construir caminhos de transição do atual modelo para outro mais transformador, valorizando tudo o que temos que já aponta nessa direção, e dando seguimento ao sonho de educadores como Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro, Paulo Freire, Milton Santos ou Felippe Serpa. E como bem diz Pedro Demo, aposentar de vez a má consciência de uma universidade do mundo da lua.

 

 

Notas:

1. Este artigo busca sensibilizar o leitor para o horizonte da universidade necessária. O autor tem consciência de que há muitos pesquisadores e grupos de pesquisa focados em causas nessa direção, mas busca enfatizar a falta de desenho estrutural/estruturante do sistema e das instituições.

2. A expressão ‘Universidade do mundo da lua’ foi cunhada por Pedro Demo na década de 90, como caricatura de uma universidade sem compromisso com os principais problemas da população brasileira. Continua válida.