Essa expressão de aparente cortesia sempre me doeu no ouvido, porque para piorar as coisas, eles, os americanos, abrem o bico e entoam uma melodia toda especial quando a utilizam.

É mais do que melodia, é um gesto performático com a palavra ‘good’ lá no agudo abrindo as cortinas do ouvido alheio, e o resto embicando numa descida abrupta para uma cadência no grave: ‘for you’.

A minha sensação de habitante da língua portuguesa é que toda a energia positiva de uma suposta comemoração, de algo que merece reconhecimento, desaparece nesse final esdrúxulo.

A alegria e o reconhecimento ficam delimitados em torno da própria pessoa e simplesmente murcham. Qual o sentido de delimitar a alegria e o reconhecimento na redoma da individualidade? Ora, essa pergunta toca diretamente na idéia de ordem simbólica.

Nunca interagimos simplesmente com outros, há uma complexa rede de pressupostos mediando essas interações. E é uma rede sutil, virtual mesmo. Só existe na medida em que os falantes agem como se ela existisse. Para os lacanianos esse mediador invisível é o Grande Outro.[i

A adoção generalizada da expressão ‘good for you’ demonstra a construção de uma sociedade onde as fronteiras do indivíduo — para o bem ou para o mal — são declaradas intransponíveis. Onde a alegria do outro não me pertence.

Mas toda essa linha de análise parece esbarrar no fato de que, com relação ao mundo dos grandes feitos, a relação dos americanos com os relatos fantásticos dos filmes, das guerras e dos esportes mostra uma carga intensa de identificação com os heróis. A alegria do herói, ao contrário da do vizinho, é “vivida e compartilhada” por milhões.

Estaríamos, dessa forma, diante de uma possante assimetria entre a relação com o próximo imediato, a quem rechaço como possibilidade de pertencimento (você é você e ponto) e a relação com o próximo da identificação (com o qual imagino me misturar e ser da mesma espécie, quase divina).

Obviamente essa tensão traz marcas bastante evidentes de ideologia, e responde claramente ao pragmatismo herdado dos ingleses, só que projetado num País de capitalismo continental, tipo americano, como diz aquela velha canção que faz troça com os vizinhos do Norte.

Se o outro que está próximo é constituído por uma linguagem redoma que o transforma em terra incógnita, em fonte de desconfiança e competitividade — e o outro da fantasia é cada vez mais sedutor, onipotente e inalcançável...

...talvez a consequência dessa tensão insuportável seja uma aderência total ao espectro do herói agressivo e conquistador, que transforma o outro da vizinhança em seu objeto de descarga e domínio. Feito o estrago, a aura de herói só pode ser mantida com a eliminação suicida do próprio ator.

E esse é um detalhe importante, que confirma essa “sacralidade” perversa do ato. Se o autor do massacre ficasse vivo teria de abdicar da aura fantasística de herói, e, minimamente, assumir a responsabilidade pelo que fez.

Nesse momento em que nos perguntamos sobre o que há de errado com a sociedade americana para gerar de forma tão insistente as situações mais esdrúxulas possíveis de massacres — talvez essa percepção da assimetria entre o outro da fantasia e o outro da vizinhança seja um elemento importante.

E se for assim, o controle das armas, embora de grande valia, atuaria apenas na superfície do fenômeno. A rigor, seria necessário rever a relação entre capitalismo e imaginário, e isso com a ajuda e participação dos republicanos!!!

Lembrete: embora a sociedade americana seja o lugar onde o sintoma se manifesta na atualidade, seus mecanismos estruturais estão se tornando cada vez mais globais, interagindo com todas as ordens simbólicas constituídas pelas culturas do mundo.

O mal americano não é apenas americano, e bom seria que redescobríssemos de uma vez por todas a força do Ubuntu[ii], a noção africana que traduz a amarração existencial dos indivíduos, inscrita de forma emblemática naquela famosa frase: “Eu sou porque você existe”.

paulocostalima@terra.com.br 

[i] Zizek lembra que quando alguém viola a decência em atos, não faz simplesmente o que os outros não fazem, faz o que não ‘se’ faz; aí está o Grande Outro em plena observação do intercâmbio lingüístico;

 

[ii]  Aproveito a oportunidade para abraçar e homenagear o amigo Ruy Cesar da Casa Via Magia, que tão apaixonado pelo Ubuntu dedicou todo um Mercado Cultural à sua celebração, convocando o resto do mundo para alguns dias na Bahia.