O número bate forte. Foram 20,6 bilhões de reais arrecadados pelas igrejas no Brasil em um ano. Os dados foram apresentados em matéria da Folha, a partir da Lei de Acesso à Informação.

Uma quantia imensa. É como se houvesse uma loteria de 400 milhões a cada semana com um único vencedor, eterno.

Traz consigo uma enorme responsabilidade: dinheiro não é só dinheiro, é também energia de realização, oportunidade de transformação positiva. Valeu a pena Brasil?

Pode parecer impertinência — afinal, cada um tem a liberdade de doar o que é seu. Mas, da mesma forma, a sociedade democrática tem o direito de saber onde investe suas esperanças.

Fala sério: se houve um cara que deixou bastante clara sua posição de pureza radical diante da fé, muito além das coisas materiais e do dinheiro, foi Jesus Cristo.

 “Não ajunteis tesouros aqui na terra… Ninguém pode servir a dois senhores: ou vai odiar o primeiro e amar o outro, ou aderir ao primeiro e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro (MT 6, 19 e 24)”.

Em outra passagem célebre, responde a um jovem rico:

“Vai, vende os teus bens, dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no céu Depois, vem e segue-me… É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus (Mt 19, 21).

Se o espírito de São Francisco de Assis, que viveu a radicalidade desse discurso, tivesse predominado, teríamos uma sociedade completamente diferente hoje. Não predominou, venceu o capitalismo que cada vez mais se intensifica. Religião e lucro passaram a conviver com intimidade.

Por mais que o meu taxista fanático diga que tudo se resolve com Malaquias 3, 10 — “Trazei ao tesouro do templo o dízimo integral” —, vejo que não prestou muita atenção no próprio texto de Malaquias 2, 1:

“Agora, então, sacerdotes, é para vós o mandamento seguinte: Se não derdes atenção nem tiverdes em mente o desejo sincero de glorificar o meu nome, eu vos mando maldições… Eu vos arrancarei o braço, e jogarei estrume na vossa cara.”

Vivo, o que diz Jesus de organizações feitas em seu nome para arrecadar mundos e fundos em dinheiro, construir impérios, exercer poderes — e como bem percebemos, enriquecer indivíduos?

Bom senso: precisamos criar mecanismos de proteção do cidadão doador. E se as igrejas gozam de privilégios legais, como p.e. dispensa de impostos, todos são doadores.

É preciso que esses privilégios resultem em relatórios precisos dos gastos realizados. O Brasil precisa avaliar em detalhe o que é feito de bom, e o que é desperdício e apropriação indevida desses 20,6 bilhões anuais de investimento…

Portanto, não apenas os doadores diretos, mas também todos os cidadãos desta república, merecem ser informados dos gastos e realizações derivados desse santo dinheirinho. Com a palavra, os legisladores.