Embora surjam da mesma raiz de fantasia e gozo, são muito distintos, se separam que nem água e óleo. São construções que trazem em si as marcas dos seus lugares culturais de origem, a Bahia e o Rio de Janeiro.

Meu Deus, o que é mesmo um trio elétrico?  Uma coisa é certa, ele puxa o olhar para cima, em sua missão de intensificar o cotidiano. E dizer que nasceu sob a forma de um calhambeque, uma fobica, no início dos anos 50. De lá para cá foi crescendo com novas estruturas e capacidade sonora ampliada, fazendo relevo na já ondulante topografia das ruas de Salvador.

Ao puxar o olhar para cima, o Trio refaz, no âmbito da folia, a mesma estratégia milenar consagrada pelo trono, e pelo altar — especialmente o altar que freqüentou as ruas da cidade durante tantos séculos sob a forma do cortejo. O Trio elétrico herda da procissão.

Na Bahia, o sagrado foi virando profano (e vice-versa). A famosa exposição ‘Barroco no Rebolado’ de Silvio Robatto, que tive a honra de 'prefaciar', mostra como as igrejas baianas estão cheias de personagens semelhantes em estilo às da folia. Incrível!!

Então, de certa forma, o sagrado sacralizou o carnaval: como culto e cultura. De forma mais recente, como ‘produto cultural’, expressão um tanto detestável, mas que sempre serve para lembrar que na metáfora do consumo sempre fica um resto, do qual já não nos livramos mais.

Já com a Escola de Samba a dinâmica do olhar se inverte. Embora haja carros alegóricos e coisas que acontecem no alto, a base da Escola de Samba é o chão, o lugar dos passistas, o lugar do samba. Os carros pontuam o discurso, intensificando-o, mas a estratégia básica envolve o olhar da arquibancada para o chão. É o olhar da arquibancada que erotiza (avalia e justifica) o desfile — e, nesse sentido, é como se acontecesse para o olhar da Corte.

Pois é, em todo desfile de Escola de Samba há esse espectador implícito. Mestre-Sala e Porta-Bandeira tradicionalmente usavam aquelas perucas brancas e roupas da nobreza recém-chegada ao Brasil (na foto, Portela 1970) — o luxo da Escola de Samba remete a essa fantasia de transformação. Dos morros, direto para a nobreza. Para o olhar da nobreza. Esse foi um traço herdado da tradição dos ranchos, que antecede às Escolas.

Embora o Trio elétrico tenha surgido como manifestação democrática, como demarcação do espaço de rua para a folia do cidadão, sem cordas ou cordeiros, foi aos poucos sendo requisitado para o novo ambiente dos blocos e negócios, passando a financiar e ser financiado por esse ciclo que vai dos abadás à ocupação da rede de hotéis, sempre liderado pelas divas (e divos!) da axé music.

Ao se entrincheirar no centro de um espaço mantido por cordas e por centenas de pessoas muito pobres se sujeitando a ganhar alguns níqueis por dia para exercer o papel de fronteira humana, o Trio Elétrico gera um circuito de empoderamento gozoso que me parece típico das estruturas baianas.

Empoderamento gozoso: explico melhor. Trata-se da construção de um caminho de fantasia e gozo decalcado sobre a estrutura social, sobre as relações de poder. O Trio não apenas empodera as divas cantantes, como também estabelece uma zona de privilégio para os compradores de abadás — cercados pela imensidão dos excluídos. Prazer e poder numa mesma metáfora.

O prazer de não ser excluído, de ter acesso ao clube de sensualidade/sexualidade que a corda delimita — durante muito tempo havia uma “seleção” étnica para entrar no bloco, depois que denunciaram ficou mesmo a seleção do preço —, prazer de ter acesso à alegria da bebida e das canções projetadas fundo no peito pela intensidade do som.

Ora, tudo isso, guarda uma proximidade muito grande com os arquétipos da sociedade baiana, uma elite que se esbalda cercada de exclusão por todos os lados  — e especialmente, a primazia de uma autoridade quase absoluta (o secular mandão baiano) em torno da qual se organiza a sociedade em termos de hierarquia e obediência.

Esse é o lugar de gozo reconstruído pelo Trio Elétrico dos blocos de cordas e abadas. Que, aliás, sobrevive graças a presença fiel de paulistas, mineiros e cariocas, os maiores consumidores de abadas e axé music. Uma pesquisa recente mostrou que 70% dos freqüentadores dos blocos eram de fora da cidade.

No Rio de Janeiro, o poder das Capitanias Hereditárias não teve o impacto e a permanência que teve na Bahia. O poder simbólico é claramente organizado em torno da presença do imperador e da Corte — situação simbólica que a cidade cultiva até hoje, com a notável ajuda de uma importante rede de televisão que se estruturou em torno desse ‘sintoma’, olhando para si como verdadeiro centro do País. Tudo no Rio recebe facilmente a denominação de ‘brasileiro’, mesmo sendo local.

Portanto, enquanto o Bloco de Trio dramatiza a relação de forças herdada lá de trás e mantida como estrutura psicossocial dominante na Bahia, a Escola de Samba dramatiza o olhar erotizado da Corte — que hoje ganha materialidade através da câmera de televisão, e da centralidade que ela confere aos eventos encenados na avenida.

Codetta:

A idéia de avaliar os trios, de dar nota em quesitos, seria bastante esdrúxula. A avaliação não tem nada a ver com o modelo do poder (cantar) absoluto, remete ao traçado de um poder moderador (já transformado em república) — o samba é cantado e composto em grupo, são puxadores e ala dos compositores. Da mesma forma, dançar dando cotoveladas nos vizinhos seria um tanto estranho na Escola de Samba — na Bahia é um recurso bastante comum do lado de fora das cordas, uma autorização dada ao excluído para extravasar a violência da exclusão, uma outra fonte de prazer e gozo carnavalesco. E por cima de tudo isso surge o camarote, assunto para outro papo…

 

paulocostalima@terra.com.br