Foi-se um papa. Outro virá. Mas como haverei de recuperar a emoção de saber que o papa nasceu no mesmo dia do meu aniversário? Aquilo foi justiça divina. O de antes tinha o nome do meu irmão, João. O novo era Paulo e havia nascido na véspera de São Cosme, será que comia caruru com dendê (?), pensava.Só quando cresci é que tive de aceitar, meio relutante, o herói que o papa do meu irmão havia sido.

É que João XXIII (foto) reunia no mesmo anel a religiosidade mística da minha mãe, uma mulher que acalmou o cirurgião cardiologista na véspera da sua operação aos 89 anos, e a sede de justiça social do meu pai.

Logo depois veio a ditadura de 64 e a proibição de que se lutasse por qualquer transformação social. Tudo era acusado de comunismo. Mas a injustiça social estava ali, bem embaixo dos nossos narizes.

Afinal, morei na Lapinha, bem na beira da Liberdade, o maior bairro negro de Salvador. Estudei em colégio público junto com os filhos das fateiras como diziam umas dondocas de meia tigela, como se dobradinha não fosse uma das comidas mais gostosas, e tomei várias vezes o ônibus misto, onde galinhas, porcos e gente cheia de sacolas dividiam o mesmo vão.

Então você vive num País desse e quando chega na missa é só latim e dogma? João XXIII, filho de operários, colocou os sacerdotes de frente para a vida, de frente para os fieis, rezando nas línguas do povo. E a igreja que foi surgindo depois do seu breve papado, com a aceitação do seu sucessor, não limitava a experiência religiosa a uma fé pela fé.

A fé passava pelo irmão, e o irmão tinha fome e morava em lugares miseráveis. Acho que foi assim que surgiu o que chamaram de teologia da libertação, como opção pelos pobres. Não sei ao certo, mas vi muitas vezes padres e freiras abnegados vivendo os destinos dos excluídos. Lá na missa do Pilar, em Salvador, padre Jean abraçava os portuários e a comunhão também era um diálogo fraterno.

 

E o que dizer de D. Hélder Câmara? Hoje sei que ele começou defendendo o conservadorismo nos anos 30, e só depois transformou-se no patriarca do sacrifício pela igualdade, pela liberdade. Chegaram a metralhar as paredes de sua residência no Recife, e ele altissonante: podem matar meu corpo, mas não meu espírito! Outro exemplo de fé e compromisso: D. Paulo Evaristo Arns.

Então, querido Papa, por que silenciar quase todos os que falavam essas línguas? Leio que cerca de cem teólogos e teólogas foram silenciados. Se era necessário derrubar o muro de Berlim e apagar os resquícios de Stalin na Europa, na América Latina a história era completamente outra. As ditaduras daqui eram o oposto da Polônia, como usar o mesmo remédio?

E vocês, com todo respeito, não entenderam isso. Com a cuidadosa seleção ideológico-dogmática dos rumos da igreja no Brasil, produziu-se, no mínimo, um afastamento colossal justamente dos mais pobres, que mais alienados ainda do que antes, agora depositam bilhões em contas de vorazes grupos religiosos, dispostos a vender alívio espiritual para os males do existir. E não será apenas com novas formas de culto, por mais alegres, comunicativas ou devotas que sejam que a situação será resolvida. É preciso concluir a obra de João XXIII.

Vem aí o conclave e uma nova esperança de modernização e de reaproximação — tênue que seja, pois o cuidado com a composição dos votantes foi sistemático, caminhou paralelo ao corte silencioso de todos aqueles teólogos e teólogas, fez a igreja um lugar menos propício para abrigar discursos e visões divergentes e afastou para longe a esperança de uma participação renovada das mulheres.

E, no entanto, como diz Boff: “não é preciso ter medo das diferenças” — os consensos tenebrosos é que geram as disputas internas tão condenadas pelo Pontífice em seu último sermão. Queremos uma igreja que seja capaz de dialogar outra vez com os tempos. Por que não um Papa Francisco, pelo que sei, nunca houve um antes?

O amor inclusivo de João XXIII, junto com a ousadia de Helder Câmara, e quem dera, a simplicidade ecológica de Francisco de Assis, que além disso renunciou ao poder e às riquezas, assumindo a pobreza radical como caminho para o sagrado.