O herói é um sádico. Mas é bilionário, jovem, forte, bonito e americano. Poderia almejar os mais belos e desafiadores ideais concebíveis — e, no entanto, seu sonho e paixão é construir uma sala super requintada de torturas sexuais.

Quem diria que esse tipo de imaginário está vendendo milhões e milhões de livros, especialmente ao público feminino! Pior: vem levando escritores das mais longínquas partes do mundo a ‘tentar a mão’ na direção do erótico explícito, muitas vezes de maneira forçada. A santa pornografia embalada como literatura!

A arte vai ser engolida pela pornografia? Ou irá absorvê-la como mais um recurso ficcional? Mas será mesmo possível considerar a simples pornografia como ficção? Existe arte pornográfica, ou uma coisa exclui a outra?

O assunto merece ser discutido e analisado. Um observador cauteloso terá de reconhecer que não se trata de fenômeno de superfície, envolve muitos ângulos (e câmeras), não é nada extemporâneo, pois:

i. se a arte (tratada como mercadoria) tende a se confundir com a publicidade;

ii. e se a publicidade depende mais e mais de apelos e referências sexuais;

iii. então, arte e pornografia deverão convergir de alguma forma.

A Oxford University Press publicou recentemente o título — Art and Pornography: Philosophical Essays, editado por Hans Maes e Jerrold Levinson. Questiona-se neste trabalho justamente porque um fenômeno tão abrangente mereceu tão pouca reflexão filosófica até hoje. Busca-se, dessa forma, revisar o ‘status’ artístico e a ‘dimensão estética’ da pornografia.

Pois é: a dimensão estética. Embora reconheçam que existem poucos trabalhos na área de artes que possam ser reconhecidos diretamente como pornografia, os autores citam vários exemplos que poderiam ser descritos vagamente como ‘arte pornográfica’.

Integram essa lista as pinturas de John Currin, as esculturas de Bruce Nauman, as colagens de Paul McCarthy, as fotografias de Thomas Ruff, as estatuetas de Jeff Koons, e as instalações de Judy Chicago. São trabalhos que fazem referência ao universo da pornografia, sem serem diretamente exemplos de pornografia.

Há uma distância construída, envolvendo o conteúdo representado, o status moral, a qualidade artística e a resposta antevista. Ocorre que todos esses critérios podem ser discutidos.

Do lado da pornografia, a zona transicional, ou seja o conjunto de coisas mais “artísticas”, incluiria o filme All about Anna produzido pela Zentropa, That kind of girl de Molly Kiely ou os treze curtas suecos Dirty Diaries, com orientação feminista.

No campo do show business a tendência ao tratamento artístico do obsceno só faz crescer. Basta lembrar da pegadinha de Michael Jackson, parte inquestionável do seu charme, as verdadeiras instalações de Madona, a mão boba da Lady Gaga, entre muitos e muitos outros pagodes.

A temática se multiplica em muitas vertentes:

. a crítica feminista, que não deixa passar despercebida a relação entre o nu feminino e a reprodução das relações de hierarquia e poder;

. o possível valor pedagógico da pornografia como manifestação de novas construções de identidade sexual;

. o papel da transgressão no interrregno arte e pornografia e  as análises possíveis das moralidades assim construídas;

. o caminho de perversão desse capitalismo tardio e a queda das referências simbólicas da lei (vide os textos de Zizek).

Como é de praxe no colonialismo cultural dos nossos dias, o livro se restringe a criadores do Norte. Os estudiosos do Norte são, via de regra, ignorantes do Sul. Então ignoram que a proximidade entre arte e sexualidade explícita (em todas as 50 nuances) é historicamente um projeto brasileiro e baiano — lembram do “não existe pecado do lado de baixo do Equador…”?

Como deixar de lado a figura setecentista de um Gregório de Mattos, construindo com suas artes retóricas, imaginários muito mais saudáveis e criativos que essa apologia erótica insossa de um perverso bilionário cinza?

              Brás pastor inda donzelo   /   Querendo descabaçar-se

              Viu Betica a recrear-se    /  Vinda ao prado de amarelo…

(o resto, que é bem mais picante ainda, projetando uma noção estranha de solidariedade com relação à mulher, o leitor se faz favoire de ver na internet…)