Hoje recebi um telefonema de um paciente conhecido meu, desesperado. “Somente daqui a seis meses” afirmou indignado ao telefone. “A programação de minha cirurgia somente poderá ser feita no mínimo daqui a seis meses. Se tiver sorte”. E ele certamente precisará de muita sorte. Ele e outras centenas de pacientes com situação semelhante.

Portador de um câncer de língua, evidente ao olhar de qualquer pessoa. Úlcera de 2 cm visível ao olho nu. Basta examinar a boca deste infeliz cidadão. Ele não estava programando uma cirurgia plástica para diminuir o tamanho de sua barriga, ou aumentar o tamanho de seus seios antes das próximas férias na praia. A vida dele e sua qualidade dependem claramente de uma intervenção eficiente e segura. O mais rapidamente possível.

Neste caso, a urgência da intervenção poderia significar, não somente a cura ou o controle efetivo da doença grave, mas talvez a preservação da língua dentro da boca. Sim, com o avanço do câncer – e câncer sempre progride e avança e invade e se espalha – fica gradativamente mais difícil extirpar todo o tumor sem sacrificar o órgão todo. A língua toda! E porque este triste  paciente desesperado estaria com sua cirurgia retardada por pelo menos seis meses, “se tiver sorte”?

Pois ele depende de tratamento no maior hospital público universitário do País. Com muitas salas cirúrgicas equipadas e prontas, e cirurgiões sentados com os braços cruzados. Porque?  Pasmem, porque faltam anestesistas. Muitos abandonaram seu emprego neste grande hospital público, deixando de anestesiar os pacientes para que sejam operados e suas doenças resolvidas.

Enquanto isso, as autoridades governamentais estão ocupadas na campanha eleitoral, divulgando seus majestosos resultados no cuidado do bem estar da população de nossa cidade, de nosso estado e do nosso Brasil. Assim que acabarem as eleições, meu triste paciente com câncer de língua, em dois meses, eles tentarão resolver o problema dos anestesistas. Selecionados, contratados e preparados, reiniciarão o cuidado dos doentes. Aí sim, teu câncer será tratado e talvez tua língua preservada. Basta ter paciência, caro paciente, e, como você mesmo disse, muita sorte.