Cuidando de pacientes com câncer de pulmão, tenho a infeliz tarefa de acompanhar muitos casos de insucesso dos tratamentos usuais. O tumor cresce, se espalha, e fica progressivamente menos controlável. Quando chegamos aos estágios avançados, e após várias tentativas de tratamentos com eficiência limitada, os familiares dos doentes geralmente me pegam de lado. Longe dos ouvidos ansiosos dos próprios pacientes. “Doutor”, quase todos pedem, “queremos um fim digno para nosso pai, nossa mãe, nosso irmão”, etc.
Totalmente compreensível. Quando não há mais chances de reverter ou de curar a doença, sobra a possibilidade, ou a obrigação, de oferecer um final de vida digno.

Tendo o privilégio de tratar um grande número de pacientes com câncer, das mais diversas origens raciais, culturais e sociais, fico pensando o que significa dignidade. Especificamente para este paciente e para aquela família.Para diferentes grupos sociais, o conceito de dignidade varia tanto que, o é considerado digno por alguns familiares, pode ser totalmente inaceitável ou ultrajante por outros.

Perguntei para alguns colegas médicos, oncologistas, qual seria seu próprio conceito de dignidade. Todos, sem exceção, param para pensar muito, antes de tentar me dar uma resposta. Geralmente “enrolada”. Acredito que, com todo o respeito ao que eu mesmo considero digno, ou qualquer outro médico da mesma forma, devemos antes de confirmarmos com todo vigor nosso empenho em garantir um final de vida digno a um paciente, perguntar aos familiares, ou ao doente, de que tipo de dignidade estariamos falando. Nós vamos nos surpreender frequentemente com a resposta, e com o que a família espera de nós.

Há até quem advoga, como Dr A. Cochrane da London School of Economics,  que para a bioética, o próprio conceito da dignidade é falho. Praticamente sem definição, quase inexistente. Apesar de ser exigido com fervor e insistência por quase todos.