Acabei de voltar de uma viagem de trabalho no Oriente Médio. O clima de incerteza, de preocupação e de expectativa está no ar. Qualquer que seja a cidade que visito. Geralmente, após reuniões em universidades, centros oncológicos ou hospitais, os hospitaleiros e generosos colegas médicos árabes me convidam para comer alguma coisa. Almoço, jantar, ou simples doces com cafezinho (árabe, sem dúvida).
 

Nenhuma destas reuniões descontraídas ultrapassou 15 minutos antes dos presentes da mesa começarem a discutir as “turbulências” regionais, conhecidas por nós no Ocidente pelo genérico nome de Primavera Árabe. Deixo entre aspas a palavra turbulência por uma razão simples. Dependendo de quem estiver compartilhando o jantar, a percepção do que ocorre no Mundo Árabe muda. E muda muito.
 

De “bem vinda revolução” até o “total caos”. Como estive em reuniões diárias com médicos ou autoridades de saúde, fica clara  a tragédia humana que se instala, galopante, nas bandas do Crescente Fértil.  Milhões de dólares em espécie, em armas ou equipamentos bélicos inundam este ou aquele lado, situação ou oposição, dos movimentos “revolucionários”. Compram-se, literalmente, e a preço de ouro, votações, referendos, aprovações de leis. Compram-se, também a preços não muito baratos, xeiques religiosos para emitirem fatuas (leis islâmicas criadas aprovadas por um  líder religioso) que restringem a atuação política, social, e econômica  desta ou daquela minoria (geralmente estas são as reais vítimas das revoluções do mundo árabe).
 

A miséria da população não está em questão.
 

A falta de acesso ao mínimo do mínimo da saúde básica não parece preocupar os líderes das revoluções. Que crianças, idosos, mulheres e desempregados, marginalizados pelos acontecimentos, não consigam o mínimo para uma sobrevida (não estou falando de vida descente, mas mera sobrevida) parece irrelevante aos políticos e líderes na região. Refugiados largados em tendas sob o inverno regional. E não se enganem por pensar que Oriente Médio é um deserto, e portanto faz sempre calor. Mesmo no Sahara, as noites do inverno atingem frequentemente temperaturas abaixo de zero. Dinheiro para estes coitados? Nenhuma menção clara e enérgica por países que apóiam este ou aquele grupo, que querem derrubar este ou aquele presidente, rei, emir, ou alguém semelhante. Dano colateral.
 

Em tempo. Todos os membros dos ministérios de saúde que encontrei foram unânimes. O dinheiro dedicado aos projetos de saúde, aos hospitais, e à assistência básica dos países árabes que não estão (ainda) no olho do furacão da Primavera Árabe foi reduzido drasticamente.
 

Tempos de guerra, justificam os governos. Orçamentos redirecionados. Guerra dos outros.