As reações diante dos resultados do Censo Agropecuário 2006 – IBGE, divulgados no último dia 30, mostram duas percepções. Uma, da mídia, dando conta que os reconhecidos avanços da atividade não espantaram as deficiências estruturais do passado. A outra, do ministro da Agricultura e das entidades que representam o agronegócio contestando os critérios que confirmaram a relevância da agricultura familiar no valor bruto da produção agropecuária brasileira.

Foi grosso o senhor Reinhold Stephanes (PMDB) ao justificar a sua ausência no evento de apresentação de dados: “Se não fui convidado para o baile, não vou para o café da manhã” (Folha de São Paulo, 01/10). Queixa-se que ao incorporar as pequenas propriedades na agricultura familiar, o IBGE “ofuscou a importância do agronegócio na balança comercial“.

Parece assim resumir a sua indignação ao realce. Talvez, ministro, com mais purpurina, parafina ou serpentina, como sugere a canção de Gilberto Gil, o agronegócio brilhará.

Um incenso desnecessário, pois é inegável o papel do agronegócio na economia brasileira. Não apenas na balança comercial, mas na conquista de valor adicionado aos produtos primários, na oferta de empregos para fora das porteiras da fazenda, no patrocínio do avanço tecnológico, na internacionalização de grandes empresas.

Mesmo sabendo de tudo isso, a CNA (Confederação Nacional da Agricultura), através de sua coordenadora de assuntos econômicos, prontamente mandou ver um controverso apoio ao ministro: “o aumento da concentração (de terras) demonstra que a política agrária do governo não tem gerado resultados (…) sem garantir acesso ao crédito e à assistência técnica, o governo acaba forçando a saída do produtor do campo“.

Ué, mas não é o ministro aliado que reclama do peso maior que o método propiciou à agricultura familiar? Não são eles que criticam o apoio diferenciado que o Ministério do Desenvolvimento Agrário concede através de incentivos aos pequenos produtores rurais? Faltaram mais conversas para acertarem os ponteiros da semântica.

Há uma grande distorção no uso das grifes familiar e empresarial para caracterizar a atividade agrícola no Brasil. O que sai da produção para o mercado é empresarial. Não importa se os destinos são a feirinha de Conceição da Aparecida (MG) ou o porto de Hamburgo, na Alemanha.

O IBGE realiza censos agropecuários desde 1970. O último referia-se a 1996. Parte dos resultados ora publicados já estava disponível há dois anos. Sobretudo, no que diz respeito aos dados de utilização das terras, concentração fundiária, emprego no campo.

Terras concentradas em grandes áreas. Não chegam a 3% da área total os estabelecimentos menores do que 10 hectares. Existem 5,2 milhões de estabelecimentos agropecuários no país ocupando uma área de 330 MM de hectares. 45% dessa área são de propriedades maiores do que 1.000 ha.

Em 1985, 23,4 milhões de pessoas trabalhavam no campo, 18% da população total. Em 2006, a participação caiu para menos de 9% (16,5 milhões de pessoas). Fruto de uma maior mecanização em áreas e culturas cada vez mais extensas. Não só. Mas também da falta de apoio ao pequeno agricultor que, quando dado, é tão chorado por algumas entidades presas ao ideário do velho patronato.

O Censo constata o que sempre se soube e o que se deveria saber. É um trabalho inestimável de um Instituto sério, que assim seria tratado por um ministro da Agricultura de bom senso.

Rui Daher é administrador de empresas, consultor da Biocampo Desenvolvimento Agrícola.

Fale com Rui Daher: rui_daher@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusivaresponsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetroseditoriais de Terra Magazine.