Nas suas magistrais crônicas para a BBC Brasil, o jornalista e escritor Ivan Lessa, falecido neste ano, costumava fazer pilhérias com pesquisas de pouca utilidade divulgadas pelos britânicos.

Até aí, tudo bem. Mesmo no Brasil, muitas delas, de tão patéticas e caricatas, servem apenas como diversão.

Fazem-me, no entanto, transitar do bom para o péssimo humor, aquelas pretensamente sérias, que insinuam verdades restritas, parciais e prejudicam o bom entendimento do tema.

Pior quando influenciam a percepção da sociedade sobre minorias, elevam preconceitos e justificam a baixa estima.

No último artigo, discuti os acesso e posse de evoluções tecnológicas do consumo moderno em mãos indígenas, conforme exposto pelo Instituto Datafolha, em encomenda da CNA.

Ontem, o desgosto veio da Folha de São Paulo, que pediu a analista da Fundação Getúlio Vargas uma estimativa do custo que representam os feriados em dias úteis para a economia.

Por certo, a matéria aproveitava a coincidência dos últimos seis dias de forca.

Manchete: “Feriados irão ‘comer’ um Paraná do PIB brasileiro”. Cálculo: perda de R$ 173 bilhões ou 4% do PIB estimado pelo FMI para o Brasil, em 2012.

Não recomendo ao leitor pegar o dado logo de prima e tacar nas redes sociais. Ou, se mais tradicional, derramar remorso por estar aproveitando a folga entre uma cervejinha e o dominó no bar da esquina.

Lendo a matéria completa, você verá que o achado não considera a produção de bens e serviços nesses dias. Simula a economia totalmente parada, como acontece naqueles filmes de ficção científica em que toda a humanidade parece ter evaporado.

Vou mais longe. Entre tantas evoluções, desconsidera as muitas empresas que compensam essas partículas de PIB antecipadamente, que nem todas autorizam a “ponte”, outras promovem rodízio entre os funcionários, e muitos usam esses dias para produção caseira.

Também, não leva em conta, mas confessa a existência de setores para quem períodos assim são essenciais em rentabilizar a atividade. Turismo, lazer e entretenimento, por exemplo.

Se assim é, pra quê então o autoflagelo que sempre deságua no discurso de guetos luxuosos e intelectualizados a respeito de nossa preguiça? Nós quem, caras pálidas?

Ah, esse encanto com austeridades exteriores. Quais? Jornadas de 36 horas semanais de trabalho, feriados oficiais tantos quanto os nossos, o despencar de milhares de funcionários dos edifícios de Manhattan às exatas 17 horas?

Coisa de colonizado.

Ora bolas! É preguiçoso um povo que passou décadas agoniado pelo desemprego, e que hoje, formalizado, não formalizado ou informatizado, acorda na hora do galo e enfrenta a qualidade dos serviços e transporte públicos que lhe são oferecidos?

E precisamos ouvir que na folga para uma pelada nas duras areias de Santos, congestionamentos vencidos, fizemos o Brasil perder um Paraná?

Se no estado do Paraná, senhor economista, quem sabe no máximo uma Maringá, uma Jacarezinho ou a pequeníssima Marmelândia?

Vai saber. Talvez o Johnnie Alf aí embaixo saiba.
 

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