Terrível a modorra com que passam as pessoas diante da porta do Botequim. Pouco interesse até no pingado e no pão com manteiga na chapa do Serafim.

Muito provável que isso se deva ao ano que vai. E não redundo se também digo que se esvai. Afinal, estamos num estabelecimento em que garrafas lotam as prateleiras.

Enquanto espero Osório, para esparramar as pedras à escolha, penso na violência e como nesses domingos ela aqui se faz ausente.

Sim, porque não considero violência, embora violenta seja, a forma como Serafim bate a porta da geladeira sempre que alguém entra no Botequim vestindo uma camisa tricolor.

O tema veio-me à mente em foto de hoje nas folhas e telas cotidianas. O rosto desfigurado e ensanguentado de tal Cigano. Conta-se que apanhou feio de certo Velásquez.

Aconteceu numa luta de vale-tudo, mais sofisticado quando dita UFC – Ultimate Fight Combat.

Logo com ciganos, em geral, alegres e dançantes ao som de seus violinos. Logo com Velázquez, pintor espanhol que viveu entre 1599 e 1660, retratista de rostos sublimes.

Por que haveriam de se meter com tamanha dor?

Pelo jeito, os massacres irão continuar. Tem gente forte bancando, aficionados aumentando, a mídia gostando.

Em sangue, o derrotado desculpou-se e prometeu revanche. Cuspirá na risca e fará seu opositor engolir pincéis. Na falta destes, dentes serão aceitos pela massa.

Bobagem, Cigano e outros derrotados ou vitoriosos. Precisam desculpar-se, não. A sociedade é que deveria fazê-lo. Pagam-lhes fortunas, ou não, para vê-los assim, justamente como vocês não gostariam de ficar. Massacrados.

Ou seus fãs negarão que a delícia num espetáculo desses é ver suas caras arrebentadas, se esvaindo em sangue?

Nós aqui, nos domingos de dominó do Botequim do Serafim, preferimos ver se esvaírem as garrafas e os risos impagáveis.

Mas, não beba se for dirigir.

Paz a todos.

Com Andrés Segovia (1893-1987) para ajudar.

Imagem de Amostra do You Tube