Creio que todos os amantes da leitura, que viveram muitos anos na era pré-digital, hoje, têm dificuldade para decidir o que fazer com seus livros.

Falta de espaço, pó acumulando, pernilongos camuflados em capas de Machado de Assis. Se a idade avança, então, pior. Como saber se os filhos e netos não considerarão um estorvo livrar-se daquela herança?

“Pai, mas hoje está tudo digitalizado”. Essa frase já deve ter doído em alguns ouvidos e, por ser quase verdade, o futuro preocupa.

Mas vejam os leitores que esse gene “guarda-livros” pode permitir boas surpresas.

Sempre penso num capítulo da agricultura que vi se desenrolar nas décadas de 1960/70. A forma como as novas tecnologias, os chamados insumos modernos eram levados da indústria nascente até o campo.

Na época, o convencional era fácil perceber. Técnicos e agrônomos contratados para o serviço público – Embrapa, Casas da Lavoura, EMATER, IAC, IAPAR – e pela própria indústria.

Um grupo divulgador, sem dúvida pioneiro, que crescia, abria porteiras e estendia aos agricultores o que aprendera nas escolas.

Um problema: sua extensão não era tanta diante da rapidez com que a expansão das fronteiras e culturas saía dos Sul e Sudeste para o Cerrado e o Centro-Oeste.

O que ajudava, então, a novidade se espalhar rapidamente numa proporção muito maior que a daquele restrito exército?

Os vendedores. Representantes comerciais que, se não conheciam em extensão os fundamentos técnicos, conheciam a comunicação necessária à aglutinação e ao convencimento.

Durante décadas, os fabricantes de insumos procuraram entender a dimensão da influência desse corpo, um tanto amorfo, que mais do que marcas, propagandas e as próprias empresas, faziam, a ele, fidelizar os agricultores.

Enquanto não entendiam, em última instância, aproveitavam-nos. 

A esta altura, curiosos, o leitor e a leitora perguntam: e o que têm os livros a ver com isso?

Pois bem, meio caduco no aspecto e na estante, encontro pequeno livro, “Extensão ou Comunicação?” (Editora Paz e Terra, 2ª edição, 1975, Rio de Janeiro).

Seu autor, o educador e filósofo brasileiro Paulo Freire (1921-1997), é mundialmente reconhecido por trabalhar conceitos pedagógicos que associam o objeto do estudo à realidade prática.

Freire não reduz a aprendizagem unicamente à capacitação técnica, a extensão, mas a define como prática de liberdade, a comunicação.

Cinquenta anos passados, fantásticos desenvolvimentos dos aparelhos de transmissão direta e imediata de conhecimento, podem ter relativizado o poder de divulgação dessa força, mas nem tanto o seu poder de comunicação.

Apenas usam vocações menos verbais e travestem suas atividades comerciais de consultorias tecnológicas, mas sua presença na prática de vida dos agricultores continua determinante para estender o ato de mais produzir como conceito cultural.

Para Freire, os técnicos e agrônomos, quando educadores, não podem efetuar as mudanças das atitudes dos agricultores sem conhecer sua visão do mundo e sem confrontá-la em sua totalidade.

É o que os vendedores, no início do processo que transformou o Brasil em potência agrícola, conheciam e faziam.
 

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