O foco do artigo de Kátia Abreu, aqui citado ontem, é o INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária.

A senadora e presidente da CNA crê preferível estruturar e qualificar os atuais assentamentos a criar, no dizer dela, “novas favelas rurais”.

Do outro lado, os movimentos sociais, ligados ao setor rural e à igreja, têm criticado o INCRA e o governo Dilma Rousseff pela rarefação no número de assentados.

O órgão governamental leva como pode, equilibrando-se num muro ladeado por críticas e lamentações.

No princípio, para justificar o baixo número de famílias assentadas, o presidente do INCRA, Carlos Guedes, argumentou a favor de consertar o errado para depois começar o novo.

Pressionado, recentemente declarou que agora vai. Há recursos para tudo. Promover desapropriações, boas áreas disponíveis no Centro-Sul e sobras para investir nos campos atuais.

Sinto não acreditar. Assim como inacreditável é um país que se pretende potência agrícola, celeiro mundial, e não consegue acomodar de forma digna milhares de trabalhadores do campo.

Pudesse o INCRA ter desenvolvido plenamente suas funções e não teria perdido cerca de 300 mil no número de famílias assentadas em 15 anos.

Abandono de áreas, mudança para outras atividades, ausência de direito estrito à propriedade antes de uma emancipação difícil de ser alcançada de forma produtiva.

A reforma agrária ainda é necessária e possível. Não se trata apenas de uma alegoria da esquerda. A agricultura brasileira não é tão perfeita a ponto de prescindir dela. O Censo Agropecuário 2006, do IBGE, mostra isso.

No meio da produtividade da soja, das exportações de carnes e café, dos milhares de colheitadeiras e luxuosas picapes, ainda persistem grandes bolsões de pobreza e miséria.

Nesse contexto, assentamentos e agricultura familiar não devem ser vistos em oposição ou como situações estanques. Não se escolhe um ou outro, mas os dois.

De nada adianta conceder assistência técnica, financiamento de insumos, apoio na comercialização a quem não tem terra para plantar. Como também não adianta dar terra sem conceder os principais fatores de produção.

São incontáveis os órgãos do governo envolvidos em promover tal integração. Em todos os níveis, de ministérios a autarquias. Além de empresas privadas, que poderiam se beneficiar da produção e fugir dos gargalos logísticos.

Uma grana alta que rola pelos ralos dessa burocracia circense.

Quando se fala que o governo gasta mal e que a carga tributária é pesada para o retorno que dá, inclua-se aí a incapacidade de gerir um sistema juridicamente legal e integrado de apoio aos assentados.

Eles são famílias, querem fazer agricultura, basta acelerar sua inclusão nos programas voltados para a agricultura familiar. Esta é a reforma agrária.

É bom ver a senadora Kátia Abreu pensando assim. Mas que acordou tarde, isso lá acordou.