Sempre sou dos primeiros a chegar ao Botequim do Serafim. Poucas vezes meu sono consegue ir além das cinco da manhã. O querido lusitano é pontual e às seis e meia levanta as portas de ferro do bar. Muitas vezes chego a tempo de ajudá-lo.

Netinho, o ajudante do Serafa, nos domingos costuma se atrasar. Não o levemos a mal, como queria Zé Kéti, hoje é Carnaval.

Quando cheguei, o boteco já estava aberto, mas vazio. Ninguém. Nada. Nulo. Zero. Não fosse algum acontecimento fatídico e nunca o zeloso português deixaria o estabelecimento ao léu.

Logo notei sobre uma das mesas peças abandonadas de uma fantasia. Não, não eram garrafas vazias a evocar sambas-canções de Antônio Maria e Dolores Duran.

Fantasia mesmo, daquelas costuradas com agulha grossa e dedos irreverentes, que brilham nas luzes da avenida. Às vezes, se desfazem, tal a força do requebrado, ou do tombo, que desastres acontecem.

Jogado no chão, vejo um par de sandálias. Dessas que a altura do salto faria Ângela Maria crescer à altura de sua voz.

Sons estranhos começam a surgir dos fundos do boteco. Um misto de choro, ânsias e repreensões.

A voz do Serafim era nítida. Destacava-se ao unir sebastianismo e salazarismo e, às porradas, procurava dar esperança a alguém que vomitava prantos, cervejas e um provável cachorro-quente estragado.

Aproximei-me já quase certo do que iria ver. De joelhos, cabeça próxima ao vaso sanitário, Neide Celebração punha os bofes para fora, o que fazia piorar os maus bofes do Serafa.

Diante da cena, meu olhar nunca seria de estupefação. Tudo estava ali escrito com tal clareza, que nosso Euclides da Cunha não usaria mais do que duas palavras para definir o ocorrido.

Neide é Celebração por seus atributos físicos. Esses de mulatas maravilhosas que vocês devem ter se cansado de ver nos últimos dias.

Mas não só. Apaixonada, viveu dois anos com Teomar, jovem sapateiro do bairro.

O relacionamento fora difícil desde o início. Filho dos descendentes de alemães, Teodoro e Marta, loiro, alto, olhos azuis, na ilusão dos pais, estava preparado para uma virtuosa Gertrudes.

Não deu para os germânicos. Os encantos da mulata, na época Neide Avião, superavam qualquer possibilidade de Teomar se integrar à Luftwaffe, em tempo de guerra, ou à Lufthansa, em tempo de paz.

Tanta a pressão, que um dia o sapateiro anunciou mudança para a Alemanha. Um tio muito rico, sem herdeiros, precisava de alguém que continuasse a expansão de sua fábrica de sapatos. O brasileiro pediu a Neide um tempo para se adaptar, então, voltaria para buscá-la.

A celebração de partida aconteceu num restaurante alemão da cidade, por coincidência, em época de Oktoberfest. Muito chope, steinhäger, paprika schnitzel, kassler e, depois, no recôndito do lar, a celebração amorosa de Neide e Teomar faria o bairro lembrar o bombardeio de Berlim.

Nunca mais tinham se visto. Até ontem, no Sambódromo.

A Sociedade Rosas de Ouro desfilou com o enredo “Os condutores da alegria”. Uma de suas alas representava o Carnaval de Colônia, na Alemanha. Nela, Teomar, ao lado de uma loirinha de óculos, sambava desajeitado.

Como Neide não o havia ensinado.

 

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