Não há dúvida de que o assunto desta semana será o Conclave, a partir de amanhã, no Vaticano, para eleger o Papa que irá substituir Bento XVI.

Coloco o assunto na vitrine da política muito mais do que nos temas religiosos. Como há milênios a fé católica preservará seu caminho espiritual e os adeptos da sua crença.

Suas estruturas políticas e econômicas, assim como os homens que as comandam e organizam, constantemente, estarão sob a mira das vicissitudes de interesses pessoais.

Da “Folha de São Paulo”

Por Clóvis Rossi

Conclave, nuvens, raios e pecados

Excesso de segredos e falta de democracia expõem a igreja a uma séria crise de credibilidade

Um dos cardeais que ouviram o papa Bento 16 anunciar que renunciaria definiu o aviso como "um raio em céu azul". Não parece uma descrição apta para a cor do céu no Vaticano nos últimos tempos, menos ainda agora, na antevéspera do conclave.

O próprio papa, em suas mensagens de despedida, mencionou "nuvens e raios", falou dos "ventos contrários" que agitaram a barca de Pedro, enquanto "Deus parecia adormecido".

Dá para acreditar que raios e nuvens desaparecerão quando os cardeais se trancarem na Capela Sistina? Difícil porque, claramente, o Vaticano enfrenta uma séria crise de credibilidade.

Basta lembrar que recente pesquisa feita entre católicos italianos mostrou descrença até na palavra do papa: se 43,5% disseram acreditar que Bento 16 de fato renunciou por lhe faltarem as forças, uma parcela praticamente igual (42,9%) atribuiu sua decisão aos "escândalos e jogos de poder na igreja e no Vaticano".

O secretismo que envolve as reuniões da Congregação Geral, que deveriam passar a limpo toda a agenda da igreja e traçar as linhas gerais do perfil do novo papa, não contribui em nada para deixar as coisas mais claras.

Sobraram muitas perguntas e nenhuma resposta ao público. Dois dos cardeais brasileiros eleitores no conclave anunciaram, previamente, que gostariam de tomar conhecimento do dossiê preparado por três de seus pares, por encomenda de Bento 16, a propósito do vazamento de papéis pessoais do papa.

A versão publicada pelo jornal "La Repubblica" e pela revista "Panorama" fala de escândalos financeiros e sexuais, além de disputas de poder. O que foi, afinal, revelado aos cardeais, se algo o foi?

Parece evidente que o Vaticano trata de circunscrever a vida da igreja ao grupo restrito de cardeais. Juan González Bedoya, responsável pela informação religiosa em "El País", comentou outro dia que "o novo papa não será nem mulher nem leigo nem será jovem nem casado nem será pai de família (apesar de esses grupos formarem 99,9% da igreja romana)".

Nem os 5.100 bispos, esmagadora maioria na hierarquia, têm chances, diz Bedoya. É um desmentido à ideia, repetida recentemente pelo próprio papa, de que "os cristãos somos todos o corpo vivo de Cristo".

O cenário nebuloso que cerca o conclave, especialmente pelo segredo em torno da investigação determinada por Bento 16, provocou um comentário assustador de Juan Arias, correspondente de "El País" no Brasil, mas que foi por 14 anos correspondente em Roma e se tornou um vaticanista celebrado, além de ter sido sacerdote, o que lhe dá conhecimento das entranhas da igreja: "Há um temor que se está estendendo entre os cardeais, e é a possibilidade de eleger um papa que em pouco tempo tenha que demitir-se, não por encobrir os pecados dos outros, mas os próprios".

Não adianta a igreja lembrar que em seus 2.000 anos de existência enfrentou nuvens, raios e ventos contrários ainda mais fortes -e sobreviveu. Os pecados de antigamente não circulavam na internet.