Chimpanzé Jimmy em foto de 2010, quando vivia na jaula do Zoo de Niterói
C. Alvim Costa/Futura Press
Chimpanzé Jimmy em foto de 2010, quando vivia na jaula do Zoo de Niterói

Macacos me mordam! Essa expressão é bastante conhecida através do famoso desenho animado "Popeye". Na verdade, o sentido original desta expressão é "Well, blow me down!" que significa ao pé da letra: "Bem, ventanias me empurrem!" Macacos me mordam é uma forma abrasileirada, como muitas outras coisas no Brasil. É tendência.

Porém, esse neologismo "abrasileirar", no âmago de nossa inocência, já indica que algo estranho vem por aí. Só perguntar a qualquer gringo o que eles acham a respeito do Brasil e dos brasileiros. Já sabemos as respostas.

Abrasileirar é bom. Abrasileirar excessivamente é ser brasileiro da gema. E nesse exagero de quindim a criançada se lambuza de verde e amarelo. Até quando a expressão "jeitinho brasileiro" irá trazer nostalgia em tantos corações?

Pois bem. Jimmy foi abrasileirado. Não pelo fato de já estar por aqui há mais de 26 anos e há 11 preso num zoológico fluminense. Ele é mais um filho da pátria. Artista plástico, perspicaz, animado e ao mesmo tempo misantropo, esse chimpanzé já teve até exposição de suas obras. O símio tem apenas um defeito, ou virtude: Não fala a língua dos homens! Mas já foi abrasileirado. Aliás, abrasileiraram-no.

Vários ambientalistas, veterinários e advogados, inconformados com seu estado cativo, iniciaram uma ação na Justiça do Rio de Janeiro para pedir um habeas corpus para o macaco. Bem, como se sabe, o habeas corpus é um instrumento jurídico que protege a "pessoa" da violência de estar presa sem motivo.

Com a ajuda de renomados desembargadores, o caso foi estudado e negado, para alegria dos donos do Zoológico de Niterói, que temiam perder a celebridade. Não teve jeito!

Tempos depois o Zoológico de Niterói foi fechado e o Jimmy mudou de prisão. Foi para o santuário de chimpanzés em São José dos Pinhais (que ansiava pela chegada da nova atração). Motivo de alegria para os 29 impetrantes da ação judicial em favor do macaco e da nação, pois a mesma se compadece facilmente sem indagações. Basta assistir às reportagens alegres e disfarçadas da TV.

O nosso primata pintor saiu com relutância de sua casa em Niterói. Teve de ser sedado. Jimmy era tratado como uma pessoa e esse foi o grande problema. Sua jaula tinha até uma televisão.

Foi pedido um instrumento de "soltura" para Jimmy, alegando que o chimpanzé estava "sofrendo a violência de estar preso sem motivo". Que sentido tem um chimpanzé preso? Para alegrar criancinhas aos domingos? Creio que nossos ancestrais existem para outras finalidades, inclusive para provar a cada dia que o futuro será deles. Se vivos estiverem.

Para a Constituição Brasileira, Jimmy não é alguém. No artigo 5º, LXVIII diz que "conceder-se-á 'habeas-corpus' sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer violência ou coação em sua liberdade de locomoção, por ilegalidade ou abuso de poder."

É fácil entender e se indignar. Alegam que o tratam como um homem, e afirmam que ele deveria ser tratado como um animal. É até plausível, porém, o julgam como um homem e o transferem para outro lugar, onde ele continuará preso, e possivelmente sem conseguir sobreviver, pois não tem mais suas faculdades de primata.

Pobre Jimmy. Em sua linguagem artística e abstrata, seus riscos e meleiras de tintas no papel apenas afirmam que ainda trocaram o sujo pelo mal lavado. Que adianta tirar alguém de Bangu I e levá-lo para Guantánamo? A ausência da liberdade é a mesma.

Abrasileiraram o macaco! Paradoxo total. O chimpanzé perdeu a causa e recebeu a já esperada sentença de prisão perpétua. Sem grilhões ou TVs exclusivas e sem perspectivas, já que suas obras são vendidas literalmente à preço de banana.

Jimmy é farinha do mesmo saco. Ele é mais uma tese de que entre a antropologia e a etologia apenas existem congruências, pois ambas estudam o comportamento animal. O macaco recebeu um cavalo de Tróia cheio de advogados, que maquiavelicamente mostraram que meios não levam a fim algum.

Uns falam garbosidade, andam eretos e comem trapos de linho e algodão prensados. Outros rastejam pela vida, comem bananas e emitem grunhidos. Que isso importa? Ninguém é igual a ninguém. Melhor, ninguém entende ninguém. Só os brasileiros é que entendem demais. Demais!

 

Diego Schaun é músico, historiador e poeta baiano.

 

 

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