Quando o estampido de um tiro soa próximo aos ouvidos, o coração dispara incontido. Quem já passou por essa experiência sabe bem como é. Horrível. Tiro é sempre tiro. Ataque. Barulho. Combate.

Há alguns anos atrás fui assaltado. Aliás, bandidos pararam o ônibus em que eu estava, renderam o motorista e levaram nossos pertences. Bateram em dois idosos e deram três ou quatro tiros nas janelas. Vidros estilhaçaram. Mães abraçaram seus filhos. Eu rezava demais. Fiz mil promessas. Iria ser uma pessoa melhor se conseguisse me salvar.

Cinco minutos depois, promessas esquecidas, coração aliviado, e os bandidos presos.  Hã? Cinco minutos? Isso mesmo! A eficácia da polícia naquele dia foi americana. Olhei várias vezes para os uniformes dos policiais procurando pelo nome FBI ou algo do tipo. Eram só guardas da Polícia Rodoviária Estadual.

Não foi a primeira vez que comparei serviços bem feitos com a presteza dos Estados Unidos. Sempre recorro a isso. Vocês recorrem. Força do hábito ou osmose de ouvir o tempo todo que os americanos são os melhores e mais evoluídos, eficazes, rápidos, providenciais e inteligentes? Tudo corrobora para o nosso rebaixamento (como brasileiros) perante o Tio Sam. Por nossa culpa. Tão grande culpa.

As penitenciárias americanas parecem nossas pousadas de veraneio. Os uniformes dos presidiários são vendidos na Daslú. Nem o Jassa consegue raspar o cabelo dos bandidos de lá. Coisa de outro mundo. Lá todos pagam por seus pecados. Os processos não são lentos, como aqui. Nos EUA quem mata morre. E isso é motivo de orgulho. Orgulho? Por quê?

Nem todos são perfeitos. Os bons também são maus. Podem ser. Às vezes são. Os perfeitos erram. Os americanos também. A justiça deles é falha. Tirar a vida de alguém como punição não resolve nada. Nunca irá resolver. Não traz o indivíduo assassinado de volta. Empobrece a honra dos humanos e alimenta a vingança, um sentimento que não devia estar no currículo dos evoluídos, eficientes e gurus do nosso futuro.

Poucos países no mundo ainda utilizam a pena de morte, ou pena capital em larga escala. Japão e Estados Unidos estão entre eles. Duas nações que tanto têm a oferecer, em certas ocasiões, nos servem comida estragada em pratos de ouro. Muito me admira a sociedade japonesa. Revolucionam a cada dia com inovações tecnológicas, científicas e biológicas e aplicam penalidades medievais em seus cidadãos corruptores. De que adianta lavar as mãos antes de defecar?

Matar alguém, como ato de punição por qualquer crime, é uma forma fajuta de cobrir com véu fino e transparente o desejo sádico, cruel e bárbaro que ainda existe em muitas pessoas. Milhares de coisas nos dão prazer. A morte miserável e dolorosa de alguém é uma delas. As leis foram criadas para a melhoria da sociedade. Como é que se entende a existência de normas que garantem a vida e outras que exigem a morte?

Na época da faculdade, quando estudava a Babilônia e as civilizações antigas da Mesopotâmia, achava o Código de leis do Rei Hamurabi um horror. Ria muito com algumas punições. Não aceitava a maioria delas, mas entendia que a humanidade ainda estava em processo formação, numa era distante e cultura diferente. Quase 4 mil anos depois, teimo em acreditar que a lei de talião foi retirada daquela estela mesopotâmica, traduzida e impressa. Algumas nações fizeram Ctrl + C / Ctrl + V e copiaram em suas constituições.

Morte por ajudar um escravo a fugir ou abrigar um escravo foragido.”. Este trecho está na seção 6 do Código de Hamurabi. Qual a diferença para a pena de morte atual? Nenhuma. Em 1700 A.C. já existiam assassinos, pedófilos, incestos, roubos e todo o tipo de atrocidades. Todas as nações que aplicaram punições capitais não prosperaram. Eram grandes potências monetárias e bélicas. Só isso. A moral sempre esteve ao lado dos benevolentes. E como de costume, os fracos, bons e rebaixados nunca evoluem. Eles permanecem no acostamento enquanto os grandes capotam nas curvas. Que o Brasil vague pelo acostamento eternamente. Mesmo em tempos de guerra. Somos alígeros e só saímos do chão por causas nobres. Por causas mortis.

“Morte à morte! Guerra à guerra! Viva a vida! Ódio ao ódio. A liberdade é uma cidade imensa da qual todos somos concidadãos”.

(Victor Hugo, em 1876)

 

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