Gambiarras, armengues, remendos… A gente sempre dá um jeito de consertar os erros mais difíceis. O relógio precisa marcar as horas, e a hora não pode ser perdida. Ou seja, criamos implantes para coroas dentárias, fita isolante para os cantos de guitarras pretas, fósforo riscado para flatulências e religiões para o estresse.

Quando Pero Vaz disse ao rei de Portugal que os nativos não cobriam as “vergonhas”, ele estava certo. Continuamos com o corpo à mostra desde 1500. Nossos desdouros não são escondidos. A gente rouba e vê o outro roubar. Mata e vê o outro matar. Reza e não pede por ninguém.

Como diz um velho irmão: dinheiro vai, dinheiro vem! A história sempre se repete. O Brasil cresceu, acreditou, venerou, estudou, emburricou, e aceitou para si os moldes cristãos, católicos, romanos, como eram e ainda são os lusitanos. O Brasil é cristão. Foi a carta na manga da Contrarreforma, ou Reforma Católica. E deu certo.

Quase todas as casas têm crucifixos, imagens, terços, rezas… Os brasileiros gostam de praticar a fé, fazer a fé, doar para a fé. Cada chefe religioso, familiar, político e militar impõe seus moldes, atos, palavras e omissões para seus súditos. Nega, acusa, infringe, manda e cria seus rebanhos a seus olhos. Se o Maurício de Nassau não fracassasse em Recife, hoje falaríamos um alemão mole e lembraríamos com saudosismo de Calvino. Mas Cristo tomou os lares brasileiros. Nossos ateus são mais ascetas que os coptas. Nossos revolucionários põem os Cátaros no bolso. A gente puxa o gatilho e se benze.

Fim de ano. Fim do mundo. Fim das atividades no Congresso. Quase 30 anos depois alguém teve a ideia de expurgar a frase “Deus seja louvado” do papel-moeda brasileiro. Motivo? O Brasil é laico, e não convém a existência de denominações, expressões, rezas, símbolos e nomes de entidades ou deuses na “coisa pública”. Blá blá blá.

Resultado? Nenhum. E foi até bom. Coisas insignificantes como estas não deveriam tomar o tempo de nossos deputados cada vez mais obreiros. Segundo o procurador Jefferson Aparecido Dias (o homem que desejar tirar o nome de Deus do dinheiro), a medida "não geraria despesas aos cofres públicos, já que se contempla um prazo de 120 dias para que a Casa da Moeda comece a imprimir as novas notas sem a frase". Ele ainda disse que o objetivo da ação é resguardar o direito de liberdade religiosa de todos os cidadãos. "Imaginemos a cédula de real com as seguintes expressões: Alá seja louvado, Buda seja louvado, Salve Oxossi, Salve Lord Ganesha, Deus Não existe. Com certeza haveria agitação na sociedade brasileira em razão do constrangimento sofrido pelos cidadãos crentes em Deus"

Futebol e religião: Coisas que não podemos discutir. Mudar um hábito banal, retirar um crucifixo de uma parede de delegacia ou fórum não mudará a sentença. A existência de artefatos religiosos em locais públicos tem algum motivo especial? Talvez. Será que o juiz, ao olhar para Jesus pregado na cruz terá compaixão e reduzirá a pena do assassino? Se era pra ser assim, lascou. O dinheiro comove mais que a coroa de espinhos do mestre!

As pessoas se dividem quanto à laicidade. Os tcheguevarianos querem que apaguem o Senhor do dinheiro, mas tatuam a cara de Tchê nas costas. Certo eles. O dinheiro vale bem mais que o corpo há milênios… Os cristãos, ou boa parte deles, acreditam que o nome sagrado de Deus não deve circular em papéis asquerosos. Ainda estou procurando a diferença entre o papel-moeda e o envelope do dízimo da Universal. O nome de Deus está em ambos.

Existe ainda um grupo de pessoas que nem sabia da existência da frase. Deus seja louvado? Aonde? No dinheiro! Uma discussão um tanto chata. Surge na hora errada. Será que eles não entendem que na próxima sexta-feira o mundo pode acabar? José Sarney foi o responsável pela grafia da frase “Deus seja louvado” no papel-moeda nos anos 80, quando foi presidente. Já pensou se a Dilma resolve afirmar para todos que é agnóstica (se é que já o fez) e solicitar ao Banco Central a inclusão da frase do filósofo Sexto Empírico: “Pode ser e pode não ser.”? Não faria mais sentido fabricar notas falsas.

Enquanto isso não se resolve, o dinheiro imundo (que limpa nomes) continua circulando com suas onças, tartarugas e mico-leões  louvando a Deus em cada troco. O pacato cidadão nem liga para isso. Domingo tem jogo do Corinthians. O peru está caro. O Brasil só é laico na cabeça dos laicos. O brasileiro ainda vive de fé, pois a fé não costuma faiá. Moral da história: Quem não tem o que fazer vive de detalhes. Sim, não adianta nem tentar esquecer. Eles fazem a diferença, mas a diferença não faz o todo. Amém irmãos?

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