Contar vantagem é um gesto muito nobre. As pessoas que o fazem são pias, plenas, conscientes e consequentes. Você já viu alguém consequente? Pessoas que fazem e acontecem precisam de espaço no planeta. Inventar mentiras de vez em quando é a mais pura verdade. Por isso, toda vez que faço aniversário lembro-me do Nelson Mandela. É que ele foi libertado de seu longo cativeiro no dia e hora em que nasci. 11 de fevereiro de 1990.

Bom, o Nelson agora vai passar mais um tempo no ostracismo. O Papa Ratzinger tomou/tomará o seu lugar. Essa renúncia, rara e repentina, abrilhantou o dia de meu natalício. Quando o cardeal alemão Joseph Ratzinger foi eleito, em 2005, ouvi meu avô dizer assim: “Olhe, filho, lembre-se bem desta data. Este dia é histórico!”. E foi mesmo! Durante aquela semana, pós-conclave, fiquei repetindo “Abemus papa” centenas de vezes.

Mal sabia que veria, tão rapidamente, outro fato histórico: A renúncia de Bento XVI! E no meu aniversário! Ele será um dos pouquíssimos papas que tiveram a oportunidade de ver o próprio sucessor. A mídia, a Igreja e os ateus especulam a causa mortis de seu breve pontificado. Uns afirmam que ele foi sensato, corajoso e honesto, ao afirmar que não dava mais. Outros dizem que ele foi pusilânime e deveria tocar o barco até o fim. Para um homem como Ratzinger, inteligentíssimo, catedrático e mestre em Filosofia e Teologia, deixar o posto mais alto da Igreja Católica soa como covardia. Mas as coisas não funcionam assim.

Acredito que o gesto do papa foi de grande humildade. Não é fácil abdicar de tanto poder, prestígios mil, no céu e na terra. Se não dá mais, não dá. Pronto. Não sou idiota de acreditar que o mundo é lindo assim e tudo é lindo e que a Bahia é linda e que eu sou lindo. A política interna do colégio dos cardeais é mais complexa do que as falsas veias da América Latina.

Na hora do conclave o bicho pega! Escolher dentre centenas de opções, de diversas nacionalidades e com total recato não é fácil. Existem os progressistas. Existem os tradicionalistas. Quem vai ser o novo Papa? Não faz muita diferença. Mentira. Faz sim! Apesar dos apesares, a Igreja ainda tem muito poder no mundo. Todos esperam a opinião do Papa, independente de acreditarem nele.

Engraçado esse lance de século XXI. O boom do momento é falar em novas políticas públicas, inclusão social, exclusão social, aborto, preservativos… Como se fôssemos a evolução! E a Igreja, como antiaborto, anticamisinha, anticasamento (dos padres e dos homossexuais) e antialgumascoisas, precisa tomar decisões. O povo cobra isso. Na verdade, só uma minoria cobra porque a massa não pensa. Só incha e vira pão. Pão burguês, digo, francês.

O novo Papa, que poderá ser Bento XVII ou João Paulo III terá um grande problema para resolver. Adequar a Igreja Católica aos novos tempos. Mas isso não vai acontecer. Agora não. As pessoas que mais se incomodam com determinados assuntos da Igreja não estão na Igreja. Nem querem estar ou nunca estiveram. Meio engraçado isso. Uma instituição que precisa mudar pelos outros e não pelos seus. Dificilmente as pessoas que se queixam do celibato sacerdotal vão à missa.  Elas não vão mesmo!

Um dia eu disse que queria ser papa. Deus me livre! Tô adorando ser Diego Schaun. O legal é que a partir de março, o mundo terá dois papas. Pelo menos até que Bento morra. Como diz o ditado, quem é rei nunca perde a majestade. Mesmo que ele fique recluso até o fim de seus dias num mosteiro (segundo afirmou), ele sempre será o Bento XVI. Mais uma história pra contar aos meus netos. Nós seremos a geração que viu dois papas, vivos, ao mesmo tempo, simultâneamente, concomitantemente, com a maior redundância do mundo! Boa sorte ao novo pontífice! Ele vai precisar.

 

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