Quem viveu a infância nas últimas décadas do século XX, com certeza se deleitou com os desenhos animados na televisão. O entretenimento televisivo mudou a vida das crianças que, até então, passavam o tempo com seus carros de rolimã, bonecas, jogos diversos e as correrias conhecidas de todos.

Com os “cartoons” a garotada criou um mundo imaginário além da própria imaginação. Alguém precisava salvar a monotonia do tempo, e nada melhor do que as aventuras dos super-heróis americanos. Ágeis, fortes, incríveis e com sorrisos largos, estes heróis eram essenciais para a manutenção da frágil existência do mundo. As coisas sempre estavam fora do lugar. Cabia a esses seres hercúleos ordenar a bagunça e dizimar o mal, que no final das contas, sempre voltava invencível, porém, com a velha cara de derrota.

Superman, Batman, Spider-Man… Cada um tinha um poder especial. E todos eles conseguiam vencer qualquer inimigo. O comércio adorou a chegada desses caras de mentira porque todas as crianças do mundo queriam ser Power Rangers. E fabricar milhões de bonecos, máscaras, robôs e espadinhas de plástico gera emprego, renda, capital e todos ficam felizes para sempre.

Esse lance de cultuar heróis é algo muito interessante. O nacionalismo influenciou muito tudo isso. Aqui no Brasil, por exemplo, antes dos desenhos animados, os nossos heróis eram os militares da época colonial e início do período republicado. Saudosos duques de Caxias, marechais geográficos, inconfidentes enforcados, almirantes de jangadas e demagogos escravocratas. Nossos heróis eram valorosos. Quase santos. A diferença é que suas imagens e estátuas eram equestres e cheias de medalhas no peito.

O tempo passou. A maneira de ver o mundo mudou. A historiografia é outra. Os mais ligados acabam verificando a farsa destes super-homens. Com a internet, os heróis mudaram de cor, de forma, de poderes e trejeitos. Grandes astros do passado (muitos deles eu admiro pacas…) morreram de forma covarde. Eles aprontaram demais, influenciaram gerações e fizeram merda durante toda a vida. Mas viraram heróis. Suas caras estampam bandeiras, peles e muros. Todos sabem das tramoias de nossos guerrilheiros latinos, mas ninguém ousa criticá-los, afinal, todo pokémon pode evoluir. Os heróis são assim. Mudam mesmo.

Tudo isso prova que para virar herói ninguém precisa vestir a cueca por cima da calça. De repente, aquele porrete do capitão caverna pode virar um sinal de violência e depravação, fazendo o mocinho virar vilão. Mas amanhã o vilão volta à condição de mocinho e ser paradigma ou enigma são só algumas variáveis do Xis.

Ou seja, se você quer virar herói algum dia, simplesmente não faça nada. Talvez, no futuro, as virtudes dos heróis não serão coragem, overdose, invenções ou revoluções. Em algum dia, será herói aquele que não for nada, que não fizer nada, que não souber nada, e que simplesmente for autêntico. É melhor ser herói de si mesmo. Ninguém tem nada a ver com nosso fracasso.

 

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