Ninguém comentou, que eu saiba. Li matérias nos jornais e em outros lugares, no dia seguinte. Não encontrei nada.

Refiro-me a uma passagem da declaração de José Serra, na noite de 28/10, depois do resultado da eleição em S. Paulo.

Quando perdeu a eleição para presidente, em 2010, deu a entender que não estava encerrando sua carreira política. Indicava que estaria disposto a novas empreitadas.

Desta vez, entre outras coisas, disse que saía da campanha mais animado do que entrara (cito de memória; disse mais coisas do mesmo tipo, que esqueço). De repente, arrumou os papéis para ler uma mensagem, e começou assim: “Começo a campanha…”. Parou, recomeçou: “Termino a campanha…”.

A meu ver, é um bom exemplo de ato falho (um bom lugar para ler sobre o conceito é o livro de Freud, Psicopatologia da vida quotidiana, em que há muitos exemplos, analisados).

Em resumo, e informalmente, a tese de Freud é a seguinte: esquecimentos, pequenos acidentes (perder ou quebrar objetos), atos falhos (dizer algo que não se quer dizer) nunca são casuais. Sempre têm uma motivação psíquica. De novo informalmente: são manifestações do inconsciente. Vem à tona, escapa, sem querer, algo recalcado ou que é um “desejo” inconsciente.

As teses parecem aplicar-se à fala de Serra. Pode até ser que ele, no nível consciente, naquele momento, não quisesse falar de uma campanha futura. Pode até ser que estivesse sem ânimo para outra. Pode ser que pensasse, como muitos jornalistas escreveram (ou como FHC deu e entender, pedindo renovação), que essa era sua última campanha. Mas não foi o que falou seu inconsciente… 

Então, todos – adversários ou parceiros ­ – os que acharam que ele passou a ser carta fora do baralho, cuidado: pode ser que ele mesmo nem soubesse, mas deu a entender que estará na próxima.

Por falar em campanha política, manifesto duas estranhezas. Uma é que muitos comentaristas, em vez de analisaram (ou apenas noticiar), tentaram adivinhar o que ocorreria. Todos, por exemplo, apostaram que Haddad, e, com ele, Lula, perderia em S. Paulo. Mas, no dia da eleição, e nos seguintes, comentando ou tentando adivinhar outros fatos futuros (para muitos, já temos novo presidente), não vi ninguém admitir que fez uma previsão equivocada. Nada de “erramos”, desculpem.

A outra coisa que achei bem interessante, especialmente nas falas de Merval Pereira, foi sua avaliação de que Lula até pode ter ganho em S. Paulo, mas perdeu em Manaus…