Uma piada antiga fazia a mãe desculpar a péssima nota de seu filhinho em História porque só tinham perguntado sobre fatos ocorridos antes de ele nascer.

Acontece coisa parecida em relação à linguagem, não por uma questão cronológica, mas de “iletramento”. Muitos leram muito pouco sobre a questão. Não tem nada sobre o tema na sua biblioteca. Muito menos na coleção com capa dura que “decora” a sala, ao lado das bebidas…

Pensando nisso, resolvi ajudar, informando rapidamente que certas coisas não são do tempo do Lula. Para isso, republico um texto de maio do ano passado, escrito no calor da hora, ou seja, durante os debates sobre aquele livro do MEC que, como ficou claro, não foi lido pelos críticos (eles não leram nem mesmo o capítulo em que estavam os dois parágrafos que criticaram, e, mesmo esses, foram mal lidos).

O texto é um pouco irônico. Preciso avisar, porque o pouco letrado não só lê pouco, como é muito literal.

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Para fazer a denúncia das aventuras de Palocci, um jornal conta ao leitor que analisou documentos, fez cálculos etc. Nos dias seguintes, revela mais detalhes, cita os desmentidos, os desmentidos dos desmentidos, novos nomes, novos números. Retoma-se o caso Francelino etc.

Suponhamos que a mídia tratasse da mesma forma o caso livro do MEC. Em uma página, encontra duas ou três passagens das quais suspeita. Então, lê o capítulo, depois, lê o livro. Acha que tem alguma coisa estranha. Vai mais fundo: considera o fato de que se trata de um livro aprovado e distribuído pelo MEC. Obviamente, quererá saber se há mais algum implicado. Analisa outros livros de português abonados pelo Ministério. Encontra coisas semelhantes, pelo menos em um capítulo em cada manual. Desconfiada, porque nunca ouviu falar disso (só conhecia uma apostila!), decide investigar se é coisa do PT. Avança sobre os livros de português distribuídos no governo de FHC, na certeza de que não encontrará nada disso (imagina!). Mas encontra. Então, tenta descobrir que conversa é essa.

O repórter pede uma diária extra, ou pede socorro à sucursal e ganha um reforço (parece ser coisa que vale a pena…). Lêem os Parâmetros Curriculares, do primeiro governo FHC (que são um pouco confusos, mas deixa pra lá). Encontram passagens como “A discriminação de algumas variedades linguísticas, tratadas de modo preconceituoso… Por isso mesmo, o preconceito lingüístico…”. Ficam apavorados. Verificam quem são os culpados. Consultam a bibliografia e encontram uma lista de autores, nacionais e estrangeiros, uns mais antigos, outros mais recentes. Dão umas googladas (linguistic prejudice etc). Acham os temas meio complicados! Incrédulos, conferem os “créditos”: Presidente da República: Fernando Henrique Cardoso (continuaria comunista?), Ministro da Educação: Paulo Renato Souza.

Como têm interesse em apurar a verdade, procuram Paulo Renato, que foi o “ministro dos PCNs” (Nota: ainda estava vivo). Querem entender melhor essa coisa estranha. Ele informa que vários dos que trabalharam na elaboração dos Parâmetros são professortes paulistas, e fizeram um trabalho semelhante durante o governo Montoro (um petista doente!). Basta ir à CENP, órgão da Secretaria da Educação do Estado, e ver os documentos, ele diz.

Vão. Descobrem os textos do Projeto IPÊ (como são radicais!), que foram distribuídos a todas as escolas do Estado durante aquele governo, distribuição seguida de numerosos cursos para professores de português, em diversas cidades do Estado e, na capital, para coordenadores pedagógicos e coordenadores da área. Está escrito: Governador: Montoro; Secretário da Educação: Paulo Renato. Dois criptocomunistas, eles pensam. Mas era apenas o primeiro governo democrático do Estado depois dos interventores!

Na CENP, encontrarão também, e lerão (acredito na imprensa livre e objetiva!), uma PROPOSTA CURRICULAR PARA O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA – 1º GRAU. Descobrem que é mais radical do que o livro do MEC. E que o documento é de 1991. Governador? Fleury Filho, notório esquerdista. Secretário de Educação? Fernando Morais (escreveu A Ilha, xii!!), um dos que falaram mal do livro do MEC na ISTOÉ da semana. Pode-se supor que leu pelo menos o documento da Secretaria que comandava, secretário competente e responsável que era…

No intervalo, leem reportagem da FSP, ao lado da qual está um texto claríssimo de Thaís Nicoletti. Decidem não levá-lo em conta (concluem que a FSP também está recheada de comunas). Souberam de um artigo de Hélio Schwarztman na Folha.com, que disseminava as idéias stalinistas de Noam Chomsky (ele se chama Noam Avram, é suspeito!) e as leninistas de Steven Pinker. Não gostam; sentem-se mais confortáveis com Augusto Nunes e Alexandre Garcia.

Poderão ler também Criatividade e gramática, assinado por Carlos Franchi, que é de 1998 (o governador era o xiita Mário Covas e a Secretária da Educação, a maoísta Teresa Neubauer da Silva!), um documento dirigido a professores, que, entre outras coisas, reduz a pó algumas análises gramaticais que fazem sucesso, por serem simples… e erradas (coisa que se pode demonstrar, não é questão de ideologia, e dizem respeito a categorias como advérbio, sujeito, e não à variação lingüística, esse tema de extrema esquerda – como pensam os que não leram nada). Do mesmo autor, poderão ler um fascículo breve, menor que o registro de uma empresa (referência à de Palocci, S.P.), eu acho, chamado Mas o que é mesmo “gramática”?, capaz de desasnar  [gosto deste verbo) uma pessoa que o deseje em pouco mais de uma hora.

Na CENP, alguém lembra vagamente que houve um primeiro movimento nessa direção já durante o governo do amigo dos comunistas Paulo Egydio (que o seguinte, de Paulo Maluf, enterrou; este gostava mais da ROTA). Pedem reforço. O jornal poderia enviar um especialista, como faz quando o furo (barriga?) é relativo a um tema um pouco menos óbvio?