Vi um documentário incrivelmente bem feito chamado “Língua: vidas em português” com depoimentos de falantes de todos os lugares do mundo em que a língua é falada. Os entrevistados falavam mais de sua vida do que do português, com poucas exceções. Na verdade, só Saramago, João Ubaldo e Mia Couto (este menos que os outros) falaram diretamente da língua. Vale a pena ouvir Mia Couto.

Saramago disse trivialidades e cometeu belas bobagens: supôs que “nas cavernas” os homens não falavam; proferiam sons desarticulados. É uma forma bem primitiva, ignorantona, na verdade, típica do pior do século XIX, de especular sobre as primeiras manifestações linguísticas, que ninguém sabe como foram. É um discurso a que ninguém mais adere, a não ser pascácios que levaram a sério a representação da fala dos índios dos filmes de bang-bang. Se não se sabe nada sobre o tema, por que chutar sempre “para baixo”? E acrescentou um final ainda pior: que estamos voltando a àquele estágio, que cada vez se empregam menos palavras, que estamos grunhindo. Pura falta de observação. Já dissera coisa semelhante sobre a escrita na internet, o que só mostra que um bom romancista pode ser um péssimo analista da linguagem.

João Ubaldo foi pelo menos caminho. Embora tenha reconhecido que é só um usuário da língua, que não é filólogo nem linguista (então por que fala?), e embora tenha reconhecido o óbvio – se as línguas não mudassem, ainda falaríamos latim – também proferiu sua batatada, dividida em duas.

Primeiro, disse que a juventude (!!) está usando o futuro composto (como “vou dormir”), em vez de “dormirei” por influência do inglês.  Deve ter uma noção estranha de juventude e uma não menos estranho o português! Finalizou dizendo que “vou ir é demais” (e riu, como se tivesse feito uma descoberta!).

“Explicou” que tais formas são cópias de “I will go”. Mas, se fossem, por que o original não é “I go sleep” e “I go go”, mas “I will sleep” e “I will go”?  

Fico especulando sobre o que diria se soubesse que formas como “sairei” derivam de uma mudança de “hei de sair”, o futuro antigo: o verbo auxiliar (hei) foi para o final do principal; virou sufixo (ei).

Sobre “vou ir”, uma nota: é apenas uma forma que segue o paradigma “vou dormir / vou comer / vou ler”. Afirmar que há redundância é um erro de análise, porque o auxiliar “vou”, significa ‘futuro’, como “hei” significou antigamente; não é um verbo de movimento igual ao principal…

Pode-se não gostar da forma, como não se gosta de muitas outras coisas. Mas dizer que “é demais” indica falta de método para analisar dados (que se aprende estudando teorias gramaticais que vão além das gramáticas pedestres). Nem se trata de algo muito complicado. A análise depende da capacidade banal de fazer uma lista (vou sair / vou comer / vou fazer / vou ir) e de dar-se conta de que todas as formas são iguais. O que precisa ser explicado é por que estranhamos apenas uma delas.

Podemos não gostar dos rumos que as línguas estão tomando, como podemos não gostar dos rumos que outras coisas estão tomando (a virgindade, o casamento, o comprimento das saias, a depilação, a propaganda de cervejas, todo mundo falando alto, o trânsito de S. Paulo, o cheiro do Rio Pinheiros, a gravidez da Gisele, os rumos de “Salve Jorge”, o escambau). Mas essa é a vida, a história.

Quem vir o documentário vai se dar conta de como a língua apresenta pequenas diferenças nos diferentes lugares. Quem se arriscaria a dizer que só a dele presta? Já sei: mentes estreitas. Saramago sugeriu isso, na verdade, e apelou para Vieira. Como se eles pudessem ser comparados…

Antes que esqueça, cito uma declaração de J. Ubaldo, cuja sintaxe ele poderia discutir: “Pra mim, por exemplo, eu me inspiro muito através desse boteco”. Eles não se ouvem!!

 

Aboutness

Nos últimos 20 ou 30 anos, quem leu alguma coisa sobre textualidade (coerência, especialmente) aprendeu que um dos fatores que faz uma sequência ser um texto é o fato de que é sobre (about) alguma coisa (um texto deve ter “aboutness”, dizem eles). Por exemplo, se um texto é sobre um capitão de fragata, não pode, de repente, abandonar o tema para tratar do cafetão de gravata.

O princípio vale, obviamente, para leitura. Lendo uma receita de bolo, o leitor aprende como se faz um bolo, e não sobre o perigo dos lobos ou sobre os bobos da corte. Quando leio certos comentários, descubro que tem muita gente assim, sem foco, sem aboutness, que corta e cola o que lhe vem na telha.

É fogo, torcida brasileira!