Não se trata de propriamente de responder aos comentários que leitores fazem sobre as posições que tomo nessas colunas. Até porque, às vezes, respondo no espaço apropriado. Embora não a tudo – ou a todos. Mas é fato que este post resulta de algumas considerações deles e tem o objetivo de deixar clara minha posição sobre duas ou três questões.

A diferença fundamental entre a “ciência” antiga / medieval e a moderna diz respeito a como se consideram os dados. Já comentei em colunas anteriores o comportamento de um botânico do século XVI, Brunfels, considerado o pai da botânica, que “prestou uma reverência exagerada às autoridades do passado, chegando mesmo a se desculpar pelo fato de o livro conter algumas plantas desconhecidas dos autores antigos”. Nenhum cientista faria isso hoje. Nenhum geneticista tem pudores em não seguir Mendel. E qualquer aluno de física pode ir além de Newton e mesmo de Einstein. Mas muita gente acha estranho que se analisem dados que não estão nas gramáticas ou que não se “siga” um dicionário (que eles chamam de “o” dicionário…), mesmo sem saber como é elaborado. 

Qual a diferença? O argumento da autoridade não funciona em ciência – muito menos a de “fazer concursos”. Mas funciona em direito. Para muitos, é o principal argumento nas discussões lingüísticas. Mas só eventualmente as teses são citadas e defendidas. São apenas assumidas, como se fossem óbvias e eternas.

[Às vezes, uso esse argumento, mas de maneira particular: cito dicionários e gramáticas, por exemplo, para dar uma satisfação (ou uma bordoada, conforme o caso) aos que acham que “estou / estamos inventando”. Um bom exemplo foi o caso “presidenta”. Muita gente achou que era coisa do PT. Quem achava isso deveria ter consultado um dicionário ou gramáticas. Teria descoberto que é coisa bem antiga. Pode continuar achando uma chatice. Mas não pode mais, sem ser pilantra, atribuir o feminino a Dilma, a Marta, aos petistas ou às feministas.]

Portanto, não há nenhum problema em discordar de Saramago ou de J. Ubaldo sobre as análises linguísticas (gramaticais) que fazem. Qualquer aluno do primeiro ano de letras, depois de ler alguns capítulos de um manual, de Sapir ou Pinker, pode fazer isso. É mais ou menos como discordar de Aristóteles sobre o sistema solar ou da avaliação do Brasil feita por Pero Vaz de Caminha.

Sobre os dados: às vezes, parece que basta olhar ou ouvir. Mas talvez seja necessário ter uma cabeça treinada! Ser “razoável” é isso. Por exemplo: será que “vou ir” é redundância? Se for, como disse alguém, “vou vir” é uma contradição. Ora, “vou vir” é sinônimo de “virei”. Logo, “vou ir” é sinônimo de “irei”.

É estranho? Pode ser. Mas não para todos. Para alguns, o fato obriga a fazer perguntas que as gramáticas não fazem.

Eu nem tinha me dado conta do fato, mas um leitor desmentiu outro, que afirmara que um verbo não pode se repetir (tratava-se ainda de “vou ir”), com base em um dado: “tenho tido”.

Observe-se, no entanto, que também neste caso as duas ocorrências de “ter” são interpretadas de maneira diferente: o auxiliar contribui para uma construção que indica continuidade, iteratividade, repetição (tenho tido dor de cabeça); já o verbo principal indica posse (tenho tido dicionários desde a juventude). A segunda ocorrência de “ter” é, às vezes, sinônimo de “possuir”, o que mostra mais claramente que não se trata simplesmente de uma repetição.

Ainda sobre dados: em ciência, eles são decisivos. Mas não se pode simplificar a questão, porque o dado pode não ser sinônimo do que se ouve ou  vê (os “ss” interdentais de Lula, Romário, Palocci etc. não são “dados” do português; são fenômenos idiossincráticos).

Como se distingue uma coisa da outra? Estudando! E tendo curiosidade, em vez de preconceito. Trabalhar no lugar certo ajuda. Fiscais da fazenda dificilmente são bons industriais. Donos de cursinhos podem ser quem menos entende de avaliação do sistema educacional (por isso são sempre ouvidos pelos jornais sobre o ENEM…).

Sobre minhas pretensões: um leitor tirou sarro do fato de que meu texto mereceu apenas 30 comentários, enquanto Saramago vendeu 30 milhões de exemplares de seus romances. Primeiro: não discuti a literatura de Saramago. Segundo: vendas não é o único critério (Paulo Coelho vende bem mais). Terceiro: sou professor, sei muito bem qual é meu lugar (especialmente no Brasil, e no ramo em que trabalho, no qual, entre outras coisas, estudar é considerado um mau hábito…).

Se eu quisesse seguidores, teria uma conta no Facebook