Foucault disse em algum lugar que estamos na era dos intelectuais especialistas. De fato, os intelectuais ou pesquisadores atuais estão longe de poderem ser considerados novos Aristóteles, capazes de falar “de tudo”.

Chomsky escreveu, já em 1993, (Language and thought, p. 15) que, quando se formou, era possível sem muito esforço dominar os conteúdos teóricos da linguística e da psicologia e que, há poucos anos, qualquer membro de uma faculdade poderia fazer parte de uma banca de defesa de tese. Esses dias estão longe (those days are long past), acrescenta.

O que ele diria hoje? Um foneticista e um linguista de texto podem perfeitamente desconhecer o que o outro faz. Cito dois extremos, mas poderia ficar em zonas mais próximas: um linguista de texto pode ter dificuldades na leitura de uma tese de análise do discurso, e vice-versa; um gerativista pode não compreender um funcionalista, e vice-versa.

Lembro uma conversa antiga com um biólogo a quem fiz uma pergunta que eu achava pertinente e que me respondeu (brincando?) “meu negócio é fungo”. Sabemos o quanto os médicos se especializaram. Dentro de algum tempo, o que souber tratar do seio (joelho, braço, olho) direito não terá nada a dizer sobre o esquerdo… Um médico que conheci por motivos alheios a minha vontade é especialista em acetábulo; ia a diversos congressos mundiais sobre o tema.

Um depoimento pessoal: quando tentam me entrevistar sobre reforma ortográfica, digo que sobre isso eu não falo, porque não acompanhei os debates e, na verdade, o tema não me interessa muito. Acrescento que não entendo muito bem por que um jornal se interessaria por ele, se há tantos problemas “interessantes” (os repórteres acham graça). 

Faço essa longa introdução para comentar um caso em particular, as colunas de Ferreira Gullar, aos domingos, na Ilustrada, caderno da Folha de S. Paulo. Tenho um imenso prazer em ler suas intervenções sobre arte, quando discute sua visão do concretismo e do neoconcretismo, por exemplo, embora talvez minta um pouco, ou quando discorre sobre as Bienais, diferenciando boas ideias e arte.

A tese dele, sempre ilustrada de forma interessante, é que não basta uma boa ideia; a arte necessita de uma linguagem. As instalações são um de seus alvos prediletos. Pelo pouco que tenho visto (visitei Inhotim nesse dezembro: True Rouge é arte ou uma boa ideia?), em geral concordo com ele. Significa que usaria suas palavras para falar (mal) delas, já que, no máximo, sei dizer se gosto ou não, o que é não é suficiente nem mesmo para falar de comidas. Aliás, “Poema enterrado” é arte ou apenas uma boa ideia? Eu ficaria com a segunda alternativa.

De vez em quando, no entanto, ele decide discutir política. Há duas semanas, publicou uma coluna que pode ser resumida assim: o PT se apresentou antigamente como o partido da ética, mas depois foi acusado de muita coisa e, finalmente, alguns petistas (não só, mas ele não fala dos outros partidos) foram condenados pelo Supremo. Declara que, diante disso, não entende como é que Lula e Dilma continuam sendo populares e muitos candidatos do PT continuam sendo eleitos (mais que antes, aliás).

Ora, as razões pelas quais alguém vota em um candidato ou partido são mais complexas do que corrupção ou honestidade. Basta ler cientistas políticos, psicólogos, psicanalistas, historiadores, mesmo em breves artigos de jornal, para dar-se conta disso (um assessor de Clinton ficou famoso pela tese “é a economia, estúpido!”).

Além disso, Gullar não leva em conta a seguinte questão: para deixar de votar no PT por causa da corrupção, seria preciso que o(s) outro(s) candidatos(s) fosse(m) impoluto(s). Mas tem algum? Ele não diz.

Quando leio Ferreira Gullar falando sobre arte, tenho a sensação de sair de uma lição – ele me mostra coisas que eu não veria. Quando o leio sobre política, parece que acabo de sair de um táxi ou de uma barbearia – o que leio está bem abaixo do que até eu sei.

Evidentemente, nem me ocorre propor que ele não possa escrever sobre o que quiser. Mas o preço da liberdade não é só a eterna vigilância. É também, muitas vezes, um caminhão de clichês e de lugares comuns.

Nelson Mota citou uma frase de Gullar no Estadão de 11/01/2013: “No meu tempo, ser de esquerda dava cadeia; hoje, dá emprego”. Certo. Mas aquele tempo era o da ditadura de direita. Esqueceu?